Copo de 3: 2011

23 dezembro 2011

Vila Flor tinto 2009 e branco 2010

O administrador da Casa d’Arrochella, Bernardo de Arrochela Alegria, é o grande impulsionador deste projecto. As vinhas da Sociedade Agrícola Casa d’Arrochella – Quinta do Cerval, Quinta do Nabo, Quinta das Trigueiras, Quinta de Vale d´Arcos e Quinta da Peça – estendem-se ao longo de 115 hectares. O centro de vinificação encontra-se na Quinta da Peça em Vila Flor e tem capacidade para a produção de cerca de 300 000 litros, com dois lagares de granito e cubas de fermentação em inox.

É da Quinta da Peça e da autoria do enólogo Luís Soares Duarte que saem estes novos vinhos, o Vila Flor tinto 2009 a ter uma produção de cerca de 80.000 garrafas, 13%Vol. e um preço simpático a rondar os 3,99€. Feito a partir de Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Nacional, mostrou-se um vinho jovem e bastante directo nos seus atributos frescos e cheirosos, boa intensidade sendo muito centrado na fruta madura e vermelha a rodar com algum vegetal, cacau e nota de fumo. Na boca complementa-se à prova de nariz, uma vez mais um vinho que quer mostrar a boa fruta com algum toque de vegetal, macio e arredondado a meio palato sempre com boa acidez e uma ligeira secura de taninos no fundo que pedem comida na mesa, bastante agradável sem ter de se gastar muito €€€€. 89 pts
O Vila Flor branco 2010, com 12,5%Vol. num total de 6.000 garrafas resultantes do conjunto da Malvasia Fina, Gouveio e Rabigato é um branco cheiroso e harmonioso, algo guloso no toque de maturidade da fruta, boa por sinal, citrinos, maçã e leve tropical, com mineralidade em fundo. Boca com entrada bem saborosa e frutada, arredondamento sentido com a acidez bem metida, mediano de corpo e final entre a mineralidade e a acidez do limão com algum prolongamento. 89 pts

Gostei destes novos vinhos, dois vinhos divertidos e que são duas óptimas escolhas para um consumo diário e que valem muito bem que se aposte neles. Bons amigos da mesa, optei por acompanhar umas Iscas de novilho cortadas bem finas e fritas com o Vila Flor branco, sim sempre gostei de acompanhar iscas com um copo de vinho branco e não se torna tão maçadora a refeição, aqui o resultado correspondeu com as expectativas, visto que a acidez do branco liga muito bem com a gordura e peso da isca enquanto prato, depois o toque da fruta tanto em nariz como na boca ajuda a contrabalançar, no final o toque de salsa fresca cortada ligou também muito bem. No tinto a conversa foi outra, e acompanhou uma simples Tajine de Frango pouco condimentada mas o suficiente para o tinto se portar à altura, na sua leve gulodice que apresenta com toda a sua frescura aguentou-se bastante bem.

21 dezembro 2011

Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2007


Está quase a chegar o Inverno, comemora-se às 5:30 do dia 22 de Dezembro com o Solstício de Inverno e em jeito de comemoração antecipada começo por brindar a todos com um dos melhores vinhos de mesa feitos em Portugal, o Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2007.

A Quinta do Crasto fica situada no Douro, produtor de topo que tem acostumado os apreciadores a uma qualidade constante nos vinhos que lança no mercado, com o Maria Teresa a coisa atinge o ponto máximo, podendo ser discutível a par do seu irmão Vinha da Ponte, são dois vinhos especiais feitos cada um de uma única parcela que dá o respectivo nome ao vinho. 
Basta ir ao site da Quinta do Crasto para ficar a saber que:

 "A Vinha Maria Teresa com cerca de 90 anos é uma das mais antigas da Quinta do Crasto. Apesar da baixa produtividade de uma vinha velha, conseguimos com as uvas desta vinha niveis elevadíssimos de concentração que nos permitem obter um vinho muito complexo."

As vinhas velhas têm mais de 90 anos nas quais residem mais de 30 variedades diferentes, este é o cerne da magia que as vinhas velhas transportam para os vinhos tão apreciados, um lote composto por pequenos detalhes desta e daquela casta que num conjunto harmonioso atinge patamares de invejável qualidade nas mãos da equipa de enologia da Quinta do Crasto. A produção é limitada e condicionada pelo tamanho da parcela em causa, o vinho tem direito a pisa em lagar tradicional e estágio em barricas novas 80% francês e 20% americano durante 20 meses, do que resulta um caldo com 15% Vol. numa quantidade que ronda as 8.000 garrafas, não vale o que se pede por ele cá dentro valendo quase sempre a compra lá fora... não preciso dizer mais nada.

De aroma luxuoso embora ainda ligeiramente marcado pela madeira, todo ele de bela complexidade, fruta bem madura com toque extraído de bom calibre e sem exagero a rolar bem no copo. Bálsamo vegetal, especiaria fina, tremendo na complexidade que debita, surge com uma camada de vegetal seco a lembrar chá preto, folha de tabaco, ramo de cheiros do monte... dá-me gozo cheirar este vinho. Muita harmonia, cheio e de enorme espacialidade, chocolate preto com fruta fresca a chamar pelo seu nome, cereja, groselha, amora preta... tudo marcado pela finesse e pela bondade da madeira num fundo de recorte mineral.. Na boca repete com a fruta em igual prestação, saboroso na entrada, cheio, estruturado, largo e profundo a completar todos os recantos do palato. Sente-se energia da fruta fresca com a madeira a dar corpo ao manifesto, barrica paciente mas não mordente, rasto fresco e profundo com final muito bom e longo num vinho luxuoso. 95 pts

Valbueña 5º Año Reserva 2004


Nome maior da estratosfera vínica Mundial, leia-se Bodegas Vega Sicilia, fundada em 1864 e com localização na vizinha Espanha na D.O. Ribera del Duero... ainda continuo nos vinhos que nascem no berço do Douro/Duero. Este foi servido novamente entre amigos e em grandioso jantar de Caça que organizo anualmente em Vila Viçosa... sempre regado com grandes vinhos e rodeado de grandes amigos, voltou a ser memorável mais um ano.


Não sendo um vinho barato, o efeito procura faz com que o preço suba quase sempre, mas com atenção consegue-se encontrar este vinho na casa dos 68-88€ o que por vezes é quase metade do preço que algumas lojas o colocam à venda em Portugal. Lamentavelmente continua-se a querer ganhar dinheiro à conta dos vinhos estrangeiros em Portugal, não em todos mas em alguns casos é mais que evidente... o mais grave é que se abusa da "ignorância" de quem compra e paga mais caro porque ou desconhece ou simplesmente o dinheiro não lhe custa a sair da carteira e não lhe interessa encontrar locais mais baratos. Dito isto prossigo com o vinho, um senhor entrada de gama que não fosse o seu irmão mais velho a elevar ainda mais a fasquia, seria um normal topo de gama em qualquer outra adega.
Resultante de um lote de Tinto Fino (90%) e Merlot e Malbec nos restantes 10% do conjunto, passa por barricas novas (60% Americano e 40% Francês) durante 16 meses, posteriormente passa a barrica avinhada (7 meses) para voltar a depósitos de madeira, antes do seu engarrafamento, com lançamento no mercado 5 anos após a colheita.

Não fosse o preço e seria vinho que gostaria de ter mais vezes no copo, a maneira como se desenrolou  durante todo o jantar foi algo de notável, um vinho que de inicio pede decanter, pede tempo para estender todo o seu bouquet, um vinho de perfil clássico, todo um senhor muito bem aprumado, a fruta fresquíssima com pureza e certeza, intenso e ao mesmo tempo suave, o resto é festa bem animada ainda com tempo pela frente, se bem que foi apanhado num belíssimo momento de forma. Aromas secos no fundo, algum chá preto com toques depois de mineralidade em fundo, café bem escuro com algo de cremosidade e continua a brincar e a dar que falar... com o ir e voltar da fruta bem madura e limpa, de enorme pureza.
É na boca que se confirma tudo o que foi dito, corpo médio/largo, com entrada fresca e a saber a fruta em enorme harmonia com o restante conjunto, madeira a dizer que vai amparar o jogo durante muito tempo, taninos calminhos com ligeiríssima secura e prolongado final... pede mesa, pede pratos ricos e apaladados... apesar de durar por mais uns bons anos. Perfil todo ele muito refinado, tudo o que mostra é de categoria, pode falhar apenas um pouco na complexidade ou na finesse do trato algo que certamente será matéria abordada pelos seu irmão mais velho, mas neste patamar está a marcar por isso mesmo, senhor do seu nariz e a não cansar e a convidar sempre para mais um copo... e o vinho é para isto que se quer. 94 pts

20 dezembro 2011

Quinta Sardonia 2004

No passado Sábado juntei aqui por casa, gente que estimo e que tenho o prazer de ter como amigos, para um Guisado de Javali  e optei por acompanhar com uma mini série de tintos 2004 em que a única regra que tive na escolha dos meus vinhos foi que todos os exemplares em prova tivessem tido algures uma nota superior ou igual a 17 valores, os vinhos e a prova será debatida mais lá para a frente... ou seja, quando calhar. Por agora apenas quero falar sobre aquele que considerei sem qualquer dúvida como o melhor em prova, vinho que pelo aroma se destacou claramente de todos os restantes... confirmando-se depois na boca. Afinal a qualidade sente-se quando sentada no meio da mediania. Destaquei este vinho em prova cega como não sendo de produção nacional, havia algo naquele aroma que não é normal aparecer por cá, nem nos nossos melhores vinhos... o tempo que ganhou na garrafa de um dia para o outro só veio confirmar que precisava de uma boa e larga decantação.

O resultado final foi estarmos perante um Quinta Sardonia 2004, projecto da sociedade Viñas de la Vega del Duero, nascido à beira do rio Duero em Sardón de Duero na Granja Sardón corria o ano de 1998, de seguida entra Peter Sisseck como consultor e da sua mão veio Jerôme Bougnaud na responsabilidade de enólogo e trabalho na vinha onde foi desenvolver estudo dos vários solos que encontrou, depois escolheu as variedades que achou melhor para cada tipo de solo e plantou nessas mesmas parcelas 17 ha de vinhedo com as castas (tinto fino, cabernet sauvignon, merlot, syrah, petit verdot e malbec ) apoiado na Biodinâmica

"No me interesa que la cabernet sepa a cabernet, sino que exprese el suelo calcáreo en el que se desarrolla, que sirva como vector de transmisión de su entorno" Jerôme Bougnaud

Esta colheita de 2004 com 15% Vol. que se mostraram perfeitamente integrados no perfil do vinho sem sequer se notarem durante a prova,  resultou num lote final de 36% Tinto Fino, 30% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 5% Syrah, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec e 1% Petit Verdot com 16 meses de repouso em barricas de carvalho francês, novas (45%) e usadas (55%), clarificado com clara de ovo e ligeiramente filtrado.
É no nariz que o encanto começa, o conjunto é luxuoso, muito envolvente na complexidade e frescura que emana com fruta muito pura e fresca aliada a notas de licor de cassis, balsâmico fino, notas de torrefacção, bela amplitude aromática, dá um gozo tremendo cheirar este vinho... que continua a evoluir no copo, especiado, alfazema, cacau, baunilha e muita frescura com a barrica sempre no suporte, fazendo dele também um vinho cheio. Na boca, em perfeita sintonia com o nariz, é amplo e saboroso, com muita fruta fresca e limpa a fazer-se sentir, quase que as bagas e os frutos do bosque nos rebentam na língua, à mistura um leve travo adocicado numa passagem de grande nobreza, requinte e , complementado com uma bela acidez de conjunto com belíssima presença e passagem, profundo com harmonia plena da madeira no conjunto em final apimentado e bem prolongado. O preço faz com que seja acessível, bastante até pois ronda os 30-35€. Enorme no seu estilo. 95 pts

PS: Já me esquecia, a ligação com o Guisado de Javali foi perfeita...

15 dezembro 2011

Quinta da Covela ... ganha nova vida



A Quinta da Covela está de volta... é isso mesmo que acabam de ler, a Quinta que foi responsável por alguns dos vinhos que eu e outros tantos enófilos gostavam e que por motivos que agora não interessam acabou por fechar portas, está de volta.
Recebi esta notícia com um sorriso, está confirmado e a Quinta vai voltar ao activo já no próximo ano, desta vez com novos donos, um trio formado por um brasileiro Marcelo Lima, pelo holandês Erwin Russel e pelo inglês Tony Smith, que compraram a Quinta num leilão. Pelo que me foi dito pelo próprio Tony Smith, um dos sócios, vai passar a morar em Portugal na própria Quinta para tomar conta de todo o processo. A reconstrução da adega e da equipa de enologia já foi levada a cabo e o enólogo Rui Cunha volta a uma casa que tão bem conhece, pela informação a adega está como nova após alguns anos parada. Desta maneira está previsto que para 2012 arranque novamente a produção dos vinhos que tanto prazer deram... e pelos vistos vão continuar a dar. Há apenas um encostar ao lado da Biodinâmica e uma nova imagem para os vinhos. Sobre mais detalhes o tempo o dirá, mas fica-se a saber que há vida na Quinta da Covela.

13 dezembro 2011

FIUZA PREMIUM branco 2010


Com o tempo a passar e os vinhos a saltitarem de copo em copo, dei por mim com um Fiuza Premium branco da colheita 2010, um branco que por aqui não é novidade pois já tinha falado dele na colheita de 2006. Se antes o casalinho era composto por Fernão Pires e Sauvignon Blanc, o divórcio consumou-se e surge desta vez o Fernão Pires ao lado da Chardonnay.

O vinho nesta colheita de 2010 mostrou-se ligeiramente mais atrevido a nível aromático onde todo ele ganhou mais algo de consistência, a barrica onde fermentou contribui com alguma presença no conjunto ainda que de maneira algo discreta, a fruta bem presente num misto de fruta tropical com notas de lima/limão a juntar algumas flores brancas com mineralidade em fundo.
Na boca novamente não me chega a convencer, apesar de algum arredondamento que a barrica confere ao conjunto, a fruta entra toda ela bem madura e cheia de frescura mas apenas até meio palato porque de meio até ao final o vinho parece que se esquece de nós e vai embora, deixando apenas algum cascalho como recordação. 

Reconheço que é um branco bem feito e de fácil agrado, será que o termo neste caso é tecnologicamente bem feito ? Apesar disso não faz minimamente o meu estilo pelo que não é um vinho que me dê vontade de ir comprar, o preço que pedem por ele a rondar quase os 10€ também não ajuda muito. 87 pts

11 dezembro 2011

Altas Quintas branco 2010 e tinto 2007

O que dizer de um produtor que nos acostumou a uma constante de qualidade nos seus vinhos ? O que dizer de vinhos que são feitos com agrado e para agradar ? É dito e mais que sabido que este projecto ainda recente, sempre teve pernas para andar e um passo atrás de outro foi tomando forma ali ao lado de Portalegre, ganhando o seu merecido espaço face ao que nos mostram e dizem os seus vinhos. Os exemplares que agora aqui coloco são os últimos Altas Quintas que saíram para o mercado, branco e tinto... 

Começando pelo branco, Altas Quintas branco 2010, achei-o menos formoso que o da anterior colheita, menor acidez e perde-se na falta de temperamento em boca... dito isto temos um lote de Verdelho e Arinto com fermentação em barrica e posterior estágio de 4 meses, a barrica nota-se muito pouco dando largura suficiente para as castas se mostrarem. O aroma fresco com fruta madura de predominância citrina, leve vegetal verde na folha de limão e relva com um fundo de baunilha a aconchegar. Na boca para o meu gosto com alguma falha na maneira como se comporta, direi algo soft, pedia-lhe um pouco mais de frescura, de esclarecimento e um pouco mais de nervo, mas é como é, melhor no início a lembrar fruta madura, herbáceo e numa passagem fresca que se vai tornando cada vez mais vazia e fina... 89 pts

Enquanto noutros lados se apressa em lançar novidades frescas e ainda de fraldas no mercado, há produtores que vão lançando agora a colheita de 2007 como novidade, é o caso Altas Quintas que colocam no mercado o Altas Quintas 2007, um vinho que vem dentro daquilo que já acostumou os seus apreciadores, eu sou um deles, pois sendo um vinho de Portalegre consegue aliar modernismo na maneira como se mostra, uma piscadela de olho ao trânsito internacional mas a frescura da Serra lá colocada. Frescura de uma fruta pura, madura e bem escura, algo fechado a precisar de tempo, o lote é 100% Alentejano com Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouschet e o respectivo estágio de 18 meses em barrica com anterior passagem por balseiro. Tudo isto deu complexidade, afinou e refinou, a fruta ficou com frescura embora alguma nota de chá preto, secura vegetal, a madeira muito bem trabalhada e integrada a contribuir com alguma tosta... marca da casa que tanto me agrada. Depois na boca é o que se pretende de um bom vinho, bem comportado na mesa, prontidão num consumo imediato mas possibilidade de evolução, tem aptidão gastronómica, frescura com harmonia e corpo suficientemente capaz para uns pratos mais condimentados. 91 pts

08 dezembro 2011

O "meu" abafado de Talha...

O vinho de que me apeteceu falar é um daqueles vinhos que não tem rótulo, nasceu sem nunca o ter tido ou alguma vez ter sido pensado em ter, um vinho fora do circuito "normal" apinhado de devoradores de marcas e nomes, gente que olha com desconfiança sobre tudo o que não domina ou desconhece, infelizmente conheço alguns. O que temos aqui mostra-se como aquilo que é, adulto e bastante sério na maneira como se mostra, dispensa histórias de um hipotético embalar enófilo, não precisa nem nunca precisou pois aqui o conto não é nem nunca foi necessário. A sua história nunca foi necessária ser contada para que desde sempre fosse alvo de admiração e elogios, é uma estrela que guardo com carinho e nos dias de hoje será um dos últimos Moicanos pelo que representa e sempre representou. Um vinho carregado de valor sentimental, apenas sentido por aqueles que privaram com o seu autor, todos os outros ficam despidos deste sentimento, apenas são confrontados com aquele "algo diferente" de boa concentração, a água que perdeu conferiu-lhe um toque mais concentrado, dando aquela gulodice e untuosidade tanto no olhar como quando se prova. 
Por vezes dou por mim a sonhar que sou um produtor a mostrar a sua obra de arte aos convidados, aquela obra que não sendo "minha" acaba por ser um pouco... sinto-a como tal, nem que apenas como o responsável  por manter viva a memória daquele vinho e ir sendo gravada um pouco por todos aqueles que o tiveram no copo, na minha vontade quero sentir que assim tem acontecido.
Na realidade falo de um vinho feito à moda antiga, em adega velha, sem luxos nem modernices, as uvas foram vindimadas de uma vinha velha, daquelas meio perdidas em que o branco vai misturado com o tinto, com o Fernão Pires que lhe dá uma acidez valente, com o Castelão e outras tantas castas que teimam em saltar dos contra rótulos modernos... coisas velhas. O ritual era o de sempre, a fermentação e o estágio eram da responsabilidade das talhas de barro, era ali que o branco e o tinto repousavam, fermentavam e se passavam a limpo, depois a talha era fechada e ficava à espera, sozinha mas nunca abandonada... o vinho de que falo é especial, durante a fermentação era abafado com aguardente vínica muito bem escolhida pelo seu dono, o resultado era e continua a ser mágico...
Toda a micro-oxigenação a que o vinho é sujeito devido à porosidade do barro, ao tempo que vai estagiando na talha lhe confere um aroma e sabor tão característico das talhas em que esteve, ao tempo que teima em perdurar na garrafa... o suficiente para quem quem o prova ficar na grande parte das vezes a cheirar e a olhar para o copo sem saber o que dizer... no final gostam, deixam-se perder no tempo a cheirar aquele fantástico bouquet que teima já com a sala vazia em ficar agarrado às paredes do copo, em que a frescura dos alperces e de fruta cristalizada com a oleosidade dos frutos secos se combina com o travo da talha antiga e de tantas outras coisas para apreciar devagar que este gosta de rodopiar suavemente no copo. Um vinho que faz parte de uma memória, da minha memória, um vinho que apenas sirvo aos amigos mais especiais e em que apenas me dou ao luxo de beber dois cálices ao ano, num perfil claramente dominado pelo caminho da oxidação positiva que maravilhas exerce nos Porto Colheita, elegante, cheio, complexo e amigo da boa mesa, conversador imortal e apesar da idade ainda pleno de vivacidade, assim é este vinho, assim era o meu amigo.

26 novembro 2011

Cave climatizada, vale a pena ?

Se há problema que quase sempre acaba por bater à porta do enófilo é a falta de espaço para guardar tanta garrafa que se vai juntando... por vezes fico a pensar que se reproduzem entre elas tal a quantidade que se vai juntando sem que dê conta, criando com isso uma inevitável falta de espaço a que se junta também a falta de condições ditas ideais para uma guarda minimamente satisfatória que não envolva vinho debaixo da mesa da cozinha ou algures na sombria despensa ao lado das batatas e cebolas. Das duas uma, ou se tem a sorte de ter um espaço condigno e que desenrasca a malta ou então é preciso pensar noutra solução em que quase sempre envolve a compra de uma cave climatizada... foi pela segunda que optei.

Vai para uns 3 anos vi-me obrigado a comprar uma cave climatizada para guardar os meus melhores vinhos na casa onde moro em Lisboa, na verdade com o calor a bater no Verão e o frio do Inverno as garrafas estavam tudo menos seguras, muito menos estava eu que via o stock aumentar em número e em qualidade, a medida a tomar era urgente e decidi então tentar comprar uma cave que fosse mediana e cumpridora do que pretendia. Não entrei em loucuras de gastar muitos €€€€€ até porque tenho na casa do Alentejo uma cave natural que utilizo sem receios para longas guardas, quando quero um vinho melhor pego nele e trago para Lisboa onde fica aconchegado na cave climatizada até ao dia de ir à mesa. Aqui o preço foi factor preponderante, 270€ na altura e tive a sorte de aproveitar um belíssimo desconto numa dessas lojas habituais de electrodomésticos e decidi-me por uma Samsung, não sei ainda a razão mas simpatizei com a marca,  ficou instalada na sala de jantar, silenciosa e com 3 temperaturas possíveis e reguláveis, opção brancos, tintos e outra para configurar à nossa escolha. Se funciona ? Funciona lindamente para o propósito que foi comprada, sem problemas, os vinhos não têm reclamado nem tenho notado que tenha saído algum vinho com problemas por lá ter estado guardado, pessoalmente fico mais descansado porque sei que quando quero beber um vinho à temperatura correcta basta abrir a cave e escolher o que me apetecer... acontece é que neste momento já tenho lista de espera para o condomínio. 

25 novembro 2011

Quinta de Pancas Grande Escolha 2005

Gostar de vinho e do mundo que gira à sua volta como eu gosto tem de implicar gostar de comida, de cozinhar, de estar horas de roda de um fogão para preparar um almoço ou um jantar e encher a mesa de amigos enófilos... dá-me um prazer imenso quando assim acontece, até porque a mesa da sala é grande e sente-se sozinha com pouca gente à sua volta. No pequeno aparte que se pode e deve fazer aqui para a gastronomia, falando de forma simples, uma das coisas que tenho dedicado algum tempo é a compra de alguns livros dedicados ao tema, investir em livros sempre foi algo que nunca achei descabido e ver crescer a nossa biblioteca com assuntos que gostamos é sempre agradável. 

Lembrei-me no outro dia enquanto folheava este exemplar, porque razão não falo eu nos livros que tenho e gosto, sobre os pratos que mais prazer me dão, porque não falar do que vou cozinhando para acompanhar cada vinho ? Dentro dos livros que vou comprando, destaco o The Food & Cooking of Portugal da autoria do Chef Miguel Castro e Silva, nome que dispensa grandes apresentações, um dos melhores chefes que temos em Portugal e que fez como não podia deixar de ser, um belíssimo trabalho num livro acerca da nossa gastronomia com 65 clássicos de Norte a Sul. Numa altura em que cada vez mais faz falta uma boa promoção do que é nosso, do que de melhor temos para oferecer, este livro é a imagem de que tal é possível e abre uma janela para o mundo, totalmente em Inglês mas que se entende perfeitamente. Gosto muito, na altura nem foi caro, agora o preço subiu ligeiramente e está nos 19,58€... um livro que recomendo pois não se limita a ser apenas e só um livro de receitas pelo que não se torna enfadonho, as fotografias são muito boas, apelativas e como seria de esperar todas as receitas tem o toque do chef que brilhou no Porto e agora se encontra em Lisboa no Restaurante Largo.
  
Foi com base numa das receitas do livro, Empadas de Galinha, que me aventurei na minha receita de Empadas de Arraiolos e escolhi um vinho que me encheu por completo as medidas, o Quinta de Pancas Grande Escolha 2005. Mas esse vinho já saiu para o mercado vai para algum tempo dizem alguns, pois já, mas é nestas coisas do saber esperar e não andar a beber tudo à pressa com medo de morrer e deixar vinho para os que cá ficam, que eu vou teimando em guardar aqueles que acho que precisam de tempo para espairecer, serenar a alma num sono tranquilo, este foi um desses casos até porque quem é que não se lembra dos fantásticos Pancas Special Selection Cabernet Sauvignon da década de 90 e o bem que se davam com o tempo em garrafa ?
A Quinta de Pancas fica em Alenquer (Estremadura/Lisboa) e a fama dos seus vinhos já vem de longe... depois de uns anos no limbo parece que voltou aos bons velhos tempos a que nos tinha acostumado. E assim foi, o vinho mostrou-se numa enorme fase da sua vida, ainda com anos pela frente mas a dar uma prova de enorme qualidade, se falar do preço então é mais um daqueles vinhos que deveriam ser presença mais que obrigatória na garrafeira de verdadeiros enófilos. Num lote composto por Touriga Nacional (30%), Cabernet Sauvignon (40%) e Petit Verdot (30%) que foram 20 meses a banhos em barricas novas de carvalho francês. 
É um vinho de cor escura, cheio de detalhes, com classe e elegância, algo musculado,  mas a fruta fresca e bem madura liga-se muito bem com a madeira, alguma compota, pimenta preta em boa dose, algum Cabernet presente com pimento do bom, não se atrapalha nem faz atrapalhar... desenvolve muito bem no copo. Na boca mostra-se profundo, denso e saboroso, harmonia e novamente elegância... bem estruturado, chocolate preto, fruta madura, vegetal e apimentado no final de boca bem longo e persistente... conjugando frescura com sabores frutados e harmonia com a prova de nariz. Um vinho cheio que dá prazer, o preço é um dos motivos que leva a ser alvo de cobiça pois anda na casa dos 19€... não sendo propriamente barato não chega a valores astronómicos de outros nomes da nossa praça que em qualidade se equivalem. 92 pts

23 novembro 2011

Flor de Nelas Selecção 2009


No outro dia fui ao Pingo Doce e passei na parte da garrafeira, de notar que algumas delas estão bastante bem artilhadas com coisas muito interessantes como por exemplo Vinha Formal 2008 ou Meruge 2005. Mas naquela altura a vaguear pelas inúmeras marcas das diferentes regiões, estrangeiros incluídos, dei por mim a pensar se conseguiria trazer comigo um vinho minimamente interessante apenas com uma moeda de 2€ ... depois de muito vasculhar encontrei um Flor de Nelas Selecção 2009 (lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz e Jaen). O motivo da compra foi mais que óbvio, ainda com o Reserva 2008 da mesma marca na memória nem sequer deu para pensar muito, peguei na garrafa e foi o meu vinho para o jantar, umas divinas Iscas de novilho cortadas bem finas com a respectiva batata cozida.
Corri algum risco pois iria precisar de um tinto que não se fosse deixar suplantar pelo poderio do fígado salteado em azeite, com toda a marinada a que foi sujeito anteriormente entre louro, alho, vinho branco um colher de café de mostarda e uma pinga de vinagre. 
E mais uma vez fiquei contente com a compra, uma vez que o vinho esteve à altura, na onda do Reserva embora adequado ao preço praticado, menos complexidade, menos qualidade, menos vinho... por 1.98€ não será obviamente de pedir milagres.

É o chamado vinhito simpático, todo ele bem certinho e direitinho, direi como anda na moda, gastronómico, sem falhas ou quebras, frutinha madura com ponta adocicada, sem remorsos, depois umas delicadas notas florais com sensações de barrica que aconchegam o conjunto, nos finalmente um toque daquele vegetal característico dos vinhos daquela região, na boca afinado e com bela frescura, fruta presente e leve secura... mais um que pede comida por perto, tem bom final de boca com frescura, todo ele com certa dose de elegância. Notei que melhorou ligeiramente no copo com alguns minutos decorridos pelo que uma passagem para decanter logo que vá ser servido será boa ideia. Há melhor por este preço ? 87 pts 

21 novembro 2011

Pinhal da Torre Unplugged 2011

No ano passado por alturas de Setembro escrevia-se por aqui, depois de uma fantástica visita, que no site Pinhal da Torre se pode ler Pureza, Elegância, Personalidade... coloquei na altura a Frescura e acrescento este ano... a Classe. Porque foi o que encontrei nos vinhos que provei no passado Sábado quando me desloquei à Quinta de São João a convite do produtor. 
Na verdade é Paulo Saturnino Cunha que nos recebe, que nos transmite aquela contagiante alegria de mostrar com enorme orgulho os vinhos que produz, um querer sempre mais e melhor que tem vindo a dar os seus mais que merecidos frutos, lutando contra tudo e contra todos para se colocar onde merece estar, como produtor dos grandes vinhos do Ribatejo e entre os grandes produtores de Portugal. Ano após ano tem vindo a afinar e refinar aquilo que produz, com a vontade de ajustar e cortar em algumas marcas e centrar atenção em novos rótulos, os vinhos vão ganhando novas formas, novos perfis sabores e aromas, mora ali um refinar das qualidades do terroir Ribatejano que Paulo Saturnino tão bem conhece, um auspicioso triunfar no copo de todos os apreciadores para que sem tabus olhem para um vinho do Ribatejo como algo grande e de muito bom. E o Paulo Saturnino Cunha e toda a sua equipa estão de parabéns porque se confirma mais uma vez que o caminho trilhado por eles é o do sucesso e o da qualidade entre os grandes... vinhos com raça, cheios de saber e de querer... direi vinhos com um carácter muito próprio, o mesmo que podemos encontrar na pessoa que dá a cara por este projecto familiar.

Tudo começou com uma ligeira e animada (como sempre) visita às instalações, é da praxe conhecer os cantos da casa, conhecer métodos de vinificação, que ali se utiliza a pisa a pé tradicional em vez dos modernos lagares de inox automatizados. É bom ver e saber que ali se trabalha com afinco, é bom saber que as paletes que por lá estavam apilhadas já tinham destino traçado e faziam parte dos muito % que este produtor vende para fora, é a exportação que absorve a grande maioria dos vinhos ali produzidos, parece pois que lá fora sabem dar o valor mais que merecido a estes vinhos enquanto cá andamos meio perdidos e distraídos com outras coisas.

A prova dos vinhos começou nos brancos, antes dizer que os vinhos começaram nas últimas colheitas a centrar-se numa fruta bem limpa e muito presente, sem excessos mas o suficiente para não passarem simplesmente ao lado por falta de apetite enófilo. Dito isto o primeiro vinho provado foi o Quinta do Alqueve Fernão Pires 2010 com direito a um dos três rótulos que o produtor criou para brindar a fauna local, neste caso com uma Popa, o que mais gosto e com direito a surgir aqui ao lado em destaque. Um branco directo nos aromas, muito cítrico com travo de alguma relva fresca e mineral fino em fundo, na boca repete com boa acidez e presença característica de uma casta que nunca foi de falar muito, 88pts. Depois surgiu o Quinta do Alqueve Chardonnay 2010, a meu ver com aromas à casta mas mais tímido do que é normal encontrar nesta casta, gostei mais do provado no ano passado, aqui este não tem passagem por barrica, o aroma fica algo perdido tal como na boca... bebe-se mas prefiro o anterior, uma questão de gosto pessoal nada mais 87pts. O último branco foi o 2Worlds 2010 já com direito a passagem por barrica, num conjunto em que se ganhou mais complexidade, fruta aqui mais expressiva com limão e laranja, mineral leve com toque da barrica a aconchegar o conjunto, bom traço quer na presença de boca quer no final e sem dúvida o melhor dos três brancos. 89pts

Entrando no campo dos tintos começou-se com um Quinta do Alqueve Reserva 2008, a prova dos tintos iria ser sempre em crescendo, começamos num vinho que nos apontava para fruta preta madura com caroço, sem excesso de maturação o que é logo bom sinal, um conjunto jovem frutado com toque fumado e bom balanço, frescura e alguma secura na boca com bom final, direi sem ofensa que se trata de um vinho correcto, mediano e que dá uma prova bastante agradável com boa aptidão gastronómica (como todos os restantes) 89pts. Próxima paragem no Quinta de São João 2008, ganhou mais na tonalidade e ligeiramente na concentração, o vinho mostra-se bem também ele com bastante fruta madura, chocolate de leite e boa frescura, afinado e prazenteiro com bom final de boca ainda que com alguma secura no palato a pedir comida por perto. 89pts.
Sem quebras nem paragens, saltou o Quinta do Alqueve Touriga Nacional 2008, com pujança e alguma austeridade a fazer-se sentir com vegetal seco e ligeiramente no perfume, a fruta mais escura e viva, bem limpa por sinal, com boca ampla, fresca e muito sabor a fruta e a especiarias, secura presente dos taninos em final decente 90ptsQuinta do Alqueve Touriga Nacional/Syrah 2008, onde o Syrah se destaca claramente, depois de provado o Touriga antes, a diferença que se nota aqui é o Syrah a trabalhar... num todo muito bem conduzido e conseguido tanto na complexidade de nariz como de amplitude na boca, frutaria escura, pimenta preta, chocolate preto tudo isto num conjunto de bela postura, elegância e final. 91pts. Quinta de São João Syrah 2008, um belíssimo vinho, conquistou-me pela sobriedade com que se bandeou no copo, bela complexidade num todo com especiarias, fruta escura com limpeza e um sensual doce natural, a barrica em forma sem estragar ou incomodar a conversa, harmonioso, boa profundidade e espacialidade quer em nariz e boca, alguns taninos a darem que falar mas nada que o tempo não resolva, a beber agora ou depois... com atenção e amigos por perto. 91pts


No meio da conversa fomos sendo informados das novidades, das vontades e mudanças que os vinhos do Pinhal da Torre vão sofrer nos próximos tempos/colheitas, alguns rótulos que vão ser descontinuados, outros apenas vão surgir quando a qualidade do ano assim o justificar. Dito isto foi altura de provar os novos ensaios de alguns dos próximos vinhos da casa, começando por um interessante Quinta do Alqueve Touriga Nacional 2009 que conta com uma ligeira percentagem de Merlot, nota-se aqui um pequeno salto qualitativo em relação ao 2008, um vinho mais apurado e com uma maior definição durante toda a prova 91pts, tal como todos os novos vinhos provenientes de amostras, nos quais destaco um promissor Quinta de São João Syrah 2009, que conquistou pela qualidade que debitou durante toda a prova, um dos que mais gostei, a fruta sente-se de excelente qualidade, muito viva e fresca, barrica na dose certa, amplo, harmonioso, roliço e fresco ao mesmo tempo, muito bem estruturado. Daqueles vinhos que é um prazer enorme ter à mesa, mas a precisar de tempo em garrafa 92pts. Foi provado ainda um ensaio a que foi chamado na altura de Quinta de São João Grande Reserva 2009, um vinho que apesar da sua belíssima estrutura se mostra fresco e ligeiro, harmonioso e bastante agradável, sem complicar em nada, é daqueles que convém estar muito atento assim que estiver no mercado para se comprar uma caixa e ir abrindo uma de vez em quando, o prazer está garantido em dose alargada... uma delícia 93pts. Acabou-se a prova com o futuro lote do novo Special 2009, um vinho que dispensa apresentações tal a qualidade, finesse e maneira como conjuga elegância com vigor, força e frescura mas ao mesmo tempo fácil de beber e no modo como se comporta à mesa, não cansa e convida sempre a mais um trago tamanha a qualidade com que nos presenteia, na senda do 2008, embora provando lado a lado durante o almoço eu tenha gostado um pouco mais deste 2009 94 pts.
Termino com um especial agradecimento ao Paulo Saturnino Cunha e a toda a sua equipa pelo fantástico momento que me proporcionaram e também dar os parabéns pela excelência que os seus vinhos começam a atingir... olhos bem abertos porque a coisa promete.

14 novembro 2011

Quinta do Vallado no Top 10 Wine Spectator 2011

A informar que o Vallado Touriga Nacional 2008 ficou em 7 lugar no Top 100 da Wine Spectator 2011. O vinho da Quinta do Vallado obteve 95 pontos e é em 2011 o vinho de Portugal mais bem posicionado nesta nova edição. Encontra-se à venda no Continente por um preço que ronda os 18€ ...

Wine Notes iPhone App

Reparei no outro dia enquanto vagueava pela net que para quem tem iPhone e gosta destas coisas de enfiar o nariz nos copos com vinho e dizer que cheira a isto e sabe aquilo e depois escrevinha tudo, que há uma aplicação Wine Notes que é um caderno de notas mas mais moderno e com enorme potencial.
Permite criar um arquivo para os vinhos que se vão provando, onde para além de se poder atribuir uma nota de 0 a 10, dá para tirar fotografia ao rótulo, procurar a região, escrever as castas, escolher os diferentes aromas e detalhes como acidez, taninos, corpo... no final permite enviar via Twitter. É uma aplicação grátis e pode ser feito o download aqui.

Foto retirada do site http://www.bebericando.com.br

Um "piqueno" upgrade no Copo


Tenho andado meio afastado do Copo de 3, não que a vontade de aqui escrever tenha diminuído mas porque há vida para além do vinho, a família, os amigos e tantas outras coisas a que gosto de dedicar atenção e acabo por deixar este cantinho meio às escuras nos últimos tempos.

Um dos grandes motivos foi devido a problemas que surgiram nos últimos tempos sempre que tentava editar um novo artigo, na verdade o Copo de 3 ainda não tinha evoluído para as novas versões (teimosia minha por recear perder informação e mesmo o formato no qual a página se apresenta) e começava a pedir uma actualização de fundo, limpeza séria de links, de artigos, renovação de n coisas que achei que deveriam estar e parecer melhores...

Deu trabalho pois deu, deitei mãos à obra e consegui que ficasse como desejava, ficar ficar nunca fica mas no meu entender pior não ficou, igual também não (sim sou optimista por natureza), mas sei que a coisa não se vai ficar por aqui e um dia destes a mudança poderá ser maior do que se pensa... esperar para ver. Pelo caminho aproveitei e fiz duas limpezas de garrafeira, uma no Alentejo e outra aqui do apartamento em Lisboa, onde no início não devia passar das 50 garrafas por uma questão de espaço e neste momento já tenho mais de 200 garrafitas para contabilizar... caixas e mais caixas para etiquetar e saber o que tenho, anos de colheita, número de referências de cada marca, descobrir ou relembrar de garrafas que já pensava que não tinham cá residência e uma selecção rigorosa de quem tem estaleca para habitar no condomínio de luxo que é a minha cave refrigerada.

Com tudo arrumado e o blog a funcionar em pleno, é altura de começar a escrever novamente que tenho muita prova temática a colocar, muita visita e muito vinho interessante para dissertar... se notarem uma ou outra derivação para alguns pratos, acompanhamentos ou produtos gourmet que vou comprando não estranhem, faz parte do novo pacote.

12 novembro 2011

Assobio 2009

Depois de uma breve paragem volto novamente ao activo, desta vez com um vinho para espairecer, completamente para assobiar para o lado e tentar esquecer a maldita crise... bebe-se lindamente sem se dar por ele, é um prazer garantido à mesa por quem o sabe fazer como poucos, Esporão pois claro, agora em solo do Douro numa aposta feita vai para 3 anos com a compra da Quinta dos Murças. 

Este belo Assobio é feito com as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, com 20% deste lote a estagiar em barricas novas de carvalho francês e americano durante 6 meses. Engarrafado em Novembro de 2010 e colocado à venda por um apetecível preço que ronda os 6,50€


É o chamado vinho ready to drink, puxar da rolha, deitar no copo e deixar fluir a conversa com a comezaina na mesa, ele encarrega-se do resto. Bebe-se a primeira a segunda e a terceira, que os amigos gostaram, tudo isto num vinho fresco e focado na fruta limpa bem vermelha e madura, saborosa, quiçá gulosa e assente num travo da especiarias com boa barrica e aquele toque vegetal agreste que se encontra nos vinhos tintos do Douro. Na boca complementa-se com o nariz, boa estrutura e volume, não se complica e agrada bastante em final de boa persistência.


Gostei bastante deste Assobio que mostra uma grande RPQ, a beber desde já mas não se perde se ficar esquecido um par de anos... mas agora sabe tão bem, porquê guardar ?
89 pts

Esporão Reserva branco 2009

Este e os restantes rótulos da respectiva colecção da autoria da artista plástica Joana Vasconcelos, serão porventura dos melhores rótulos que alguma vez vi numa garrafa de vinho de Portugal. Dito isto passo a dissertar sobre o Reserva em modo branco do Esporão, colheita 2009, um branco que nas suas primeiras colheitas tinha uma maior presença de madeira, o conjunto era bem mais redondo e um pouco mais torneado com a fruta a sentir-se mais "grossa" encorpada.

Recentemente a coisa tem vindo a afinar e refinar, o conjunto está a tornar-se mais fresco, mais desafiante e menos compacto, menos pacato se assim se pode dizer, este 2009 foi provado a primeira vez antes mesmo do seu lançamento oficial, mostrando na altua muita e boa fruta madura (maçãs, limão, laranja, pêra) muito fresca, flores e alguma relva, com leve carga mineral e boa estrutura. Passado mais algum tempo voltei a ele com mais duas garrafas abertas, um vinho a mostrar-se muito mais adulto e maduro, refinada complexidade, tudo no seu devido lugar e perfeitamente integrado, nesta altura o pargo assado no forno ligou na perfeição. Mais recentemente em pleno Agosto voltei a abrir mais 2 garrafas e o vinho já não se mostrou tão bem, algo por ali já se desconjuntava, pedia ajuda para ser bebido o mais rapidamente possível, o que antes estava no devido sítio começava então a desmoronar-se e a ficar empilhado o que lhe tirava desde logo grande parte do prazer que antes transmitira, mostrando-se desta forma um vinho torpe e sem graça. Recentemente abri a última garrafa quase como tira teimas e a desilusão foi completa, o vinho está completamente diferente do que havia provado da primeira vez, a meu ver mudou para algo que não me agrada, fruta madura de mais para a idade que tem, acanhado, apático e sem a frescura ou vivacidade que já teve, lembro bem a boa forma que outros Reservas brancos mostravam com alguns anos em cima, o 2007 chegou a fazer-me as delícias, cheguei mesmo a guardar alguns exemplares para usufruir dessa mesma complexidade que ganha em garrafa... neste caso dou-me por feliz por ver que os bebi num contra relógio contra o tempo de vida útil, é altura de começar a pensar no Reserva 2010 que está por aí a chegar.

11 novembro 2011

11 11 11

Uma vez que o Mundo não acabou é sinal que vou poder continuar a falar de alguns dos vinhos que me vão escorrendo pelo copo, curiosamente tenho a minha cave refrigerada marcada nos 11 graus... fica para relembrar o acontecimento apenas, as castanhas estão quentes e boas, a todos fica o desejo de terem um bom dia de São Martinho.

23 outubro 2011

Tapada de Coelheiros 1996

Convém desmistificar desde já que aquela ladainha de que os vinhos do Alentejo não sabem envelhecer é pura mentira. E como qualquer conversa que não passa de uma mentira,  nas bocas certas e levada à repetição exaustiva faz com que de mentira passe rapidamente a verdade. O consumidor incauto é quem paga e levado no engodo é empurrado para outras zonas que na altura seriam mais aliciantes de promover, digo promover porque em determinadas alturas mais parece que se quer promover a região do que "questionar" o vinho que se tem no copo. Nunca fui pessoa de dar ouvidos a gente dessa, sempre tive a sorte de ir acompanhando alguns projectos e respectiva evolução dos seus vinhos, o certo é que uma grande fatia dos vinhos mais entusiasmantes com idade que são neste momento bebidos com enorme prazer, são do Alentejo. A verdade não deve envergonhar e nomes como os antigos Mouchão, Quinta do Carmo Garrafeira, José de Sousa Tinto Velho, Coop da Granja, Montes Claros, Tapada do Chaves "Frangoneiro", Coop Portalegre... com a sua respeitável idade são vinhos que passados 15 20 anos dão uma prova notável... provando que o que era e continua a ser dito por alguns não passa de uma enorme mentira.

Dentro do lote dos veneráveis temos o Tapada de Coelheiros, onde a mestria do enólogo António Saramago o fez brilhar e elevar ao estatuto mais alto dos vinhos do Alentejo, o nome Tapada de Coelheiros é nome de respeito, a qualidade que ostentou no passado disso foi responsável, a marca deixada pelos primeiros Garrafeira fez com que um novo capítulo fosse escrito, quem é que ficou indiferente ao Tapada de Coelheiros Garrafeira 1996 ? Nos tintos Tapada de Coelheiros posso dizer que havia (infelizmente nos dias de hoje a coisa tem vindo a mudar) uma identidade a fazer lembrar Bordéus, fruto dos ensinamentos que teve o Mestre António Saramago quando estudou na dita região e que sabiamente soube interpretar e transmitir para os seus vinhos, cunho forte esse que perdura no tempo... tal como a grande parte dos seus vinhos, daqueles que quando novos são algo rudes e a precisar de tempo, taninos fortes, secura na boca, fruta carregada de sabor e tantas vezes encerrada em si mesmo, estruturados e com aquela capacidade maravilhosa de se aguentarem em garrafeira durante longos anos. Mas atenção, no Alentejo também se andam a fazer vinhos de agrado fácil e autênticos sprinters pagos a peso de ouro, vinhos sem alma e pejados de coisas amontoadas, tanto que recentemente numa prova de dois "grandes"  um Alentejo e um Douro... colheita 2003, se mostraram cansados e sem força de viver, a qualidade a fugir em grande escala ao preço que por eles é pedido e que vai para bem perto dos 40€ por garrafa.

Aqui mais uma vez entra em jogo um vinho com idade, neste caso 15 anos deste Tapada de Coelheiros 1996, aquele que secretamente venceu a talha de ouro da Confraria mas que apenas a ostentou quando levou um pouco mais de estágio e se apelidou de Garrafeira... um tinto que recorda os traços de alguns Bordéus mas com alma alentejana... é vinho dos grandes. Bouquet complexo e refinado, com frescura notável para a idade, especiaria e carga de vegetal não seco com fruta de caroço, algum licor a acompanhar e com toque de fumo, tabaco e bálsamo/floral suave a madeira vai para muito que se integrou e muito bem, todo ele muito sério, sóbrio e com saber estar, a pedir comida do tipo perdiz estufada. Na boca tem uma belíssima frescura, fruta a sentir-se de igual forma, com aquele pingo doce natural e o travo vegetal, bom especiado a surgir, travo de cacau, tabaco seco, pede comida por perto pois claro, depois complementa-se com muito sabor e prazer, tudo sem notas de estar cansado, de bengala ou a precisar de ir ao médico. São 15 anos num vinho de respeito e veneração... aqui não moram nem compotas nem madeiras a exalar baunilha em excesso nem doses de açúcar que nos deixam enjoados ao final do primeiro copo, aqui mora o saber, a paixão e mestria colocada por um dos Mestres da Enologia em Portugal.

José Maria da Fonseca Evento Wine Bloggers


Digam o que disserem, pensem o que pensarem a verdade é que a comunidade de wine bloggers tem vindo a crescer e a ganhar cada vez mais consistência e importância junto dos eno-consumidores e por seu turno junto dos produtores de vinho. O trabalho totalmente independente e sem cabos de ligação à máquina dá uma total liberdade aos bloggers de vinho, a tal voz do consumidor para o consumidor, a tal voz de alguém que comunica directamente com os seus sem ostentar galões de qualquer coisa.Fala-se abertamente, fala-se sobre o que se quer, avalia-se livremente o que se quer, escreve-se por gosto e não por obrigação, são vozes e palavras visitadas a nível global e não local, por milhares de pessoas que em número suplantam qualquer edição revisteira... sim são os eno-bloggers e vieram para ficar. Grande parte dos produtores nacionais começam a dar a importância que esse grupo veio a construir e a merecer com o passar do tempo, hoje em dia é já uma confirmação e para mim é um orgulho e uma enorme alegria quando vejo todo esse trabalho ser recompensado desta forma.

Foi no passado dia 22 de Outubro que o produtor José Maria da Fonseca abriu portas para receber os Wine Bloggers realizando um evento dedicado aos mesmos a fim de poderem provar as mais recentes novidades no mercado, conhecerem a sua história e respectivas instalações, seguido de um almoço de convívio cheio de enormes surpresas. Para mim seria a segunda vez que ali entrava, rever todo aquele património único no Mundo, respira-se história em cada recanto, o conhecer mais do que os vinhos mas sim as instalações é uma obrigação para qualquer enófilo, desde passar pela sala onde repousam os Torna Viagem, admirar a Casa das Bonecas ou vaguear pelas várias adegas, desde a imponente Adega do Periquita até à escura e misteriosa Adega dos Teares Velhos onde repousa a Frasqueira.

Como todo o Peregrino de Santiago o chegar ao destino, ao final do Camino e aquele estar-se perante a Catedral é um preencher de alma enorme, um completar de uma vontade... o poder percorrer aquela a que considero a Catedral do Vinho Moscatel vulgo Adega dos Teares Velhos é uma dessas mecas enófilas... eu enófilo me confesso, pois é um daqueles locais especiais que estamos fartos de ver em livros e revistas, que aparecem na TV mas que depois quando lá chegamos sentimos que um tal vazio se preencheu. O que ali mora são sem sombra de dúvida vinhos de status Mundial, não me venham com a conversa do melhor do mundo só porque tem um selo colado na garrafa... não, é mentira, os Melhores do Mundo moram naquela fantasiosa escuridão, naquelas madeiras velhas que respiram décadas com sonhos por engarrafar ou servir de base para outros tantos sonhos bons que qualquer enófilo gosta e quer ter nem que seja por uma vez na vida.

A prova de vinhos contou com a presença do Engº Domingos Soares Franco, que guiou todos os presentes pelos melhores vinhos da casa, novos lançamentos ou vinhos já no mercado, desde os brancos aos tintos, pelo meio dois curiosos e estimulantes tira teimas acerca da casta Verdelho Vs Verdejo e outro onde deu para comparar as diferenças de fermentação da casta Grand Noir em Lagar, Cuba e Talha, terminaríamos as provas com Moscatel e Bastardinho. O evento iria terminar num almoço de confraternização, acompanhado por 3 ícones da casa e onde iríamos ter uma enorme surpresa e um verdadeiro privilégio, que deixou a todos com um enorme sorriso na cara, mas tudo isto será contado no seu devido tempo com direito a artigo próprio. 

Para finalizar quero deixar os meus mais sinceros agradecimentos à empresa José Maria da Fonseca, no nome de Sofia Soares Franco e do Engº Domingos Soares Franco pelo fantástico dia que me proporcionaram.

03 outubro 2011

Encontrões de Vinho nunca mais...

Ocorreu na passada sexta feira e sábado o Vinhos do Alentejo em Lisboa, localizado numa espécie de barraco/tenda ali para os lados do CCB. Como no ano passado, voltei a ir, levei o meu copo de estimação que vai para alguns anos me acompanha nestas festividades. A tentativa de chegar cedo meteu-me à porta por volta das 16.30 , tendo aberto o recinto pelas 15.00 horas. A fila de pessoas à porta já se fazia notar, apenas uma porta, nem dupla mas sim apenas e só uma porta para uma pessoa passar que dava como entrada e como saída sem que se conseguisse passar calmamente ou mesmo com o carrinho do meu filho, tal o aperto... comecei aqui a torcer o nariz. Afinal de contas até tinha sido convidado pela própria CVRA pelo que não fazia qualquer sentido estar à espera numa fila que se destinava simplesmente a pagar uma entrada de 3€ com direito a copo. Se para conseguir passar foi a confusão que se sabe, ainda fui interpelado pois deveria estar na fila como todos os outros, lá dentro a coisa foi ainda pior pois de imediato fui barrado por um valente armário de duas portas que me mandou apresentar o bilhete ao que respondi que tinha convite. Como burro de duas portas não aprende e como quem não tem cartão não entra e ali o consumo mínimo obrigatório era de 3€ fui então encaminhado gentilmente para a caixa onde expliquei a situação. A menina não compreendeu e perguntou de quem era o convite, eu expliquei quem era e disse de quem era o convite, entretanto com o tempo a passar lá deixaram a minha mulher entrar com o pequenito, a piquena da caixa iluminada na inteligência entendeu que os meus convites afinal não eram convites... eram apenas mails de informação e como tal tinha de pagar dois copos (a minha mulher não ia beber mas tinha de pagar na mesma pelo que perguntei se o miúdo como não bebia também tinha de pagar) e tinha de voltar à fila... o armário de duas portas entretanto não tirava os olhos de mim, seria amor ?... comecei de certo modo a sentir-me pressionado, observado e a entrar em fusão... encontrei ali bem perto o responsável pela organização que amavelmente me indicou a zona de PRESS (existia e estava tão bem indicada que se resumia a um papel A4 no balcão num cantinho lá escondido)... onde tentei ir com alguma press para não ser agarrado pelo tal armário... na zona de Press lá tinham o meu nome e o da Margarida. Perdi nisto uns bons 30 minutos... na volta quase que esfreguei os cartões da Press nas trombas do Sr. Armário, nem um desculpe pela minha estupidez tive direito a ouvir. Comecei desta forma as provas com mau humor, coisa que detesto e que me estraga por completo a vontade de provar... Lá dentro o barulho, o palco para um grupo tocar que ocupava 1/3 do espaço, o espaço que mais uma vez se torna pequeno para tanta gente uma imagem de marca da Essência do Vinho que consegue sempre fazer eventos em espaços mais pequenos do que o número de pessoas que leva, a cara de frete de algumas pessoas que serviam vinhos, a falta de esclarecimentos sobre os mesmos, ali o telefonema era mais importante que a pessoa que estava a ser servida, os encostos, o roça roça das pessoas umas nas outras, o estar de conversa e levar um encosto de alguém que diz sirva um qualquer desde que seja bom... Encontrões da Essência ? Tenho sérias dúvidas se me voltam a apanhar em mais algum.

TAYLOR´S VINTAGE 2009


A Taylor Fladgate & Yeatman foi fundada em 1692 e desde sempre esteve nas mãos da família. Esta é sem dúvida alguma uma das casas ícones de Vinho do Porto e cujos seus Vintages não deixam ninguém indiferente, eu pelo menos sou um devoto apreciador dos vinhos desta casa, seja vintage clássico ou no modelo single quinta, ou até mesmo no fabuloso 20 anos que tanto prazer me dá beber. Já agora, lembram-se do fantástico e histórico Taylor´s Scion, um colheita de 1885 que já aqui foi provado.

O vintage 2009 da Taylor’s é fruto do lote dos vinhos da Quinta de Vargellas, Quinta de Terra Feita e, desde 2000, também da terceira propriedade da empresa, a Quinta do Junco, que tem feito uma pequena contribuição para o lote, sendo o caso também este ano.

“Este ano produziu vinhos de enorme escala à semelhança dos icónicos vintages do início do século XX, que são vinhos feitos para durar”: Adrian Bridge (Director Geral da Fladgate Partnership)

Depois de ter provado lado a lado o Croft e o Fonseca, com o Taylor´s Vintage 2009 a conversa é outra, este Indiana Jones destemido e cheio de vontade de se aventurar pelas décadas de vida que tem pela frente, brinda-nos com um enorme abraço de fruta muito pura, também mais negra (framboesa e ameixa) que vermelha (cereja), ligeiramente mais adocicado que o Fonseca, mais dado embora mais fechado no diálogo que o Croft, toda ele fresco com alguns ainda que ligeiros toques de flores campestres, todo ele a situar-se entre o sorriso gingão do Croft e a seriedade do Fonseca, o mais harmonioso e por aqui é só coisas boas as que nos mete em cima da mesa, bálsamo, chocolate de leite na envolvente e sólida estrutura. Boca plena de sabores, replica o encontrado em nariz com chocolate, fruta madura que quase se trinca num longo final. É o que mais gostei e caramba que luxo de vinho. 97 pts

FONSECA VINTAGE 2009


Sempre que toco em vinhos deste calibre sinto-me pequenino, são colossos nascidos e adormecidos nas encostas do Douro, são vinhos que quando em novos são cheios e vigorosos, fruta jovem e expressiva quase que palpitante, sente-se a Primavera e o Verão, plenos de fruta fresca acabada de colher... para após décadas de clausura despertarem do sono cheios de complexidade e sabedoria, aromas mais serenos, mais de Outono e de Inverno, vinhos de contemplação enquanto em novos são vinhos de gulodice pegada. O Fonseca é um dos grandes, pertence a uma casa que desde 1822 se fez notar pela excelência dos seus Vintage. O lote desde Fonseca Vintage 2009 tem como base os vinhos da Quinta do Panascal e da Quinta do Cruzeiro e, em pequena quantidade, da Quinta de Santo António (a primeira vez que esta Quinta contribui para um vintage clássico).


Os vinhos de 2009 têm a maior concentração de cor e taninos que registamos nas duas últimas décadas. A fruta é igualmente de uma qualidade excepcional, notória nos opulentos aromas deste Vintage” : David Guimaraens (enólogo do grupo)

A prova do Fonseca Vintage 2009 dá a ilusão, e na verdade até o é, de ser um bocadinho mais séria que os restantes, do tipo caladinhos que o senhor Fonseca vai contar um conto e vamos ficar todos em silêncio para ouvirmos. O Sr. Fonseca é uma pessoa de estatuto social elevado, vigoroso e de elevada estatura, bem cheiroso, rico muito rico, veste um sobretudo negro, bigode farto e fuma o seu cachimbo enquanto nos conta um conto onde a fruta qual herói da história domina pela veia mais escura, frutos pretos (groselha e ameixa) de um caminho mais carregado e mais fechado, direi até mais complexo, sente-se um lado vegetal de caruma, chocolate negro e pimenta preta. Na boca todo ele mais seco e com menos harmonia que o Taylor´s e sem tanta gulodice como o Croft. Embora seja um conto pequeno, o Sr. Fonseca tem muito ainda que nos dizer, quem sabe daqui a umas décadas quando nos voltarmos a encontrar e aí talvez até a história seja outra. 96 pts

CROFT VINTAGE 2009

A Fladgate Partnership declarou vintage 2009 (a última declaração foi em 2007) para todas as suas casas Taylor’s, Fonseca e Croft no dia de São Jorge dia em que tradicionalmente anuncia a decisão... 23 de Abril, irá também engarrafar uma rara e ultra limitada quantidade de vintage Quinta de Vargellas Vinha Velha. Esta é a quarta declaração de Vintage por parte da Quinta da Roêda, desde que foi comprada pelo grupo Fladgate Partnership em 2001.

Um ano marcado pela baixa produtividade e época de maturação muito seca, é como 2009 será recordado. É também um ano de vinhos excepcionalmente densos e concentrados e com enorme potencial de envelhecimento. Os vinhos de 2009, são contudo impressionantes pela qualidade da fruta e por uma complexidade multidimensional.
“O regresso à pisa tradicional na Quinta da Roêda permitiu-nos conseguir o melhor dos vinhos de 2009. Fomos capazes de extrair toda a densidade e os maciços taninos, característicos deste ano, sem comprometer a complexidade e a elegância”  David Guimaraens (enólogo da Croft)
Provando o Croft Vintage 2009, dos três aquele que notei mais acessível e com menos concentração dando uma prova mais imediata, apesar da tenrura da idade. Com muita mas mesmo muito fruta madura com tendências vermelha (amora, cereja) a sobressair com enorme qualidade e limpeza, puríssima e de ouro, talvez o mais brincalhão dos três exemplares, notas de bálsamo entranhada pelo meio da fruta, adocicado que conjuga com uma acidez no ponto para que tudo fique certinho e direitinho, na boca é guloso, cheio e redondo e com taninos cordiais, será aquele que com mais facilidade se sacrifica para abrir agora num enorme deleite quase herético para muitos. 94 pts

30 setembro 2011

Confiança...


Sorrio quando me dizem que sou esquisito, quando segundo eles aquele vinho que me deveria agradar afinal não agrada, na verdade dispenso cada vez mais os vinhos do chamado gosto fácil, vinhos de lugar comum e em nada diferenciados, puros trambolhos da enologia. Felizmente fui aprendendo com quem entende destas "cousas" do vinho, o saber diferenciar, o saber separar o que vale a pena daquilo que não passa de banal, tudo isto se foi construindo ao longo dos anos, cimentado com muitas provas, muita atenção prestada a sábios ensinamentos que iam sendo expostos por entre copos e garrafas vazias, é assim que se vai crescendo enquanto enófilo, construindo desta maneira um gosto pessoal cada vez mais apurado. Tudo isto faz também parte do meu Eu enófilo, um processo de eleição que faço questão de meter em prática na altura de comprar vinho para a minha garrafeira.
Tenho como toda a gente tem, vinhos e produtores de eleição, afinal quem não os tem, alguns são produtores que sempre acompanhei, outros produtores que me foram sendo apresentados pessoalmente ou à mesa em formato de garrafa... um desses produtores é Alonso del Yerro (Ribera del Duero).


Recentemente, compraram em Pagos de Miguel (Morales de Toro, Zamora) 8,80 ha de vinhedo com cepas plantadas entre 1930 e 1988. Este investimento deu frutos com a colheita de 2008 sendo o lançamento deste seu primeiro vinho de Toro a ser feito muito recentemente, dá pelo nome de Paydos e teve direito a todos os mimos que os seus primos da Ribera del Duero têm quando nascem. Tudo este paleio serve para mostrar que a confiança num produtor faz com que se fale num vinho "ás escuras" ,antes mesmo de o ter provado, mas certamente conhecendo a maneira como "ali" se trabalha estarei perante mais um belíssimo vinho. Se o virem não o deixem escapar, da colheita 2008 apenas foram produzidas 3.500 garrafas com preço a rondar os 20/25€... a qualidade bem acima da média está mais que assegurada. A respectiva nota de prova não deverá muito em ser colocada.

25 setembro 2011

Dona Berta Grande Escolha 2007

O tempo começa a pedir vinho tinto com um pouco mais de seriedade, aquele tipo de vinho com mais corpo e um pouco mais envolvente, que no Verão não apetece parar para pensar no que temos no copo nem o calor dá azo a que tal aconteça, mas direi que foi com este Grande Escolha e outros tantos vinhos junto de amigos que brindei a chegada do Outono.
Por entre o cheiro a fumeiro na mesa, daquele vindo de Lamego, coisa caseira feita pela família da minha mulher, os vinhos iam desfilando a bom ritmo, primeiro as "brincadeiras" para depois já com a comida a ser servida termos os vinhos certos para acompanhar os respectivos pratos... entretanto já tinha passado pela mesa um Quinta da Lixa Bruto que não me atrevo a descrever e muito menos a comprar, bom registo para um Arinto da Malhadinha a mostrar já a fruta com toque de geleia e a perder o vigor da juventude com que nos brindou no ano passado na altura do lançamento, sem dúvida que é vinho para usufruir assim que é colocado no mercado, deu-se seguimento ainda a um Altas Quintas Branco 2010, branco cheiroso com uma acidez empolgante na boca... a meu ver um pouco abaixo da anterior colheita, questão de gosto nada mais. No plano tinto um pré lançamento da AgriRoncão, o DR 2008 bem feito, algo espigado a precisar de um tempo em garrafa ou que alguém o meta no decanter uma meia hora antes de servir... preço atrativo num vinho que alia rusticidade e modernidade, mais um salto desta vez para um tinto da África do Sul da colheita 2000, vou-lhe dar mais atenção lá mais para a frente. A festa continuava, servido uma massada de bacalhau os vinhos foram tintos com boa acidez e estrutura mediana, o prato assim  pedia, mostrou-se melhor o primeiro vinho um Pinot Noir da Quinta de Sant´Ana, muito ao seu estilo um pouco mais carregado do que é normal, mas ligou muito bem e era isso que se pretendia, foi boa a surpresa cheio de fruta muito jovial e com toque de seriedade, a dar vontade de repetir certamente. O outro vinho que se colocou na mesa seria um valente enjoo, pessoalmente não gosto daquele estilo de vinho, ainda me fazem confusão os Pinot Noir super compotados que nascem no Douro, um vinho com tudo amontoado o Olho no Pé Pinot Noir. Já tínhamos deixado de brincadeiras, o arroz de pato estava na mesa (se repararem vou no segundo arroz de pato) até então nem um vinho tinha deixado saudade, aquela marca digna de registo ou motivo de celebração do que quer que fosse...

Abriu-se um Dona Berta Grande Escolha 2007, tenho vindo a seguir este carismático produtor desde os seus primeiros lançamentos, são vinhos que já aqui tive oportunidade de enaltecer mais do que uma vez, o factor Identidade a eles associado fazem com que sejam uma referência obrigatória na minha garrafeira. Nestas coisas dos vinhos, podendo estar melhores ou piores conforme o ano de colheita, nem sempre tudo corre como previsto os anos assim o determinam e o reflexo faz-se logo notar num branco com menor acidez... num tinto menos composto a nível de complexidade, variações que acontecem de forma natural sempre que se deixa falar mais a uva do que a mão do enólogo. Neste caso temos vinhos que arrisco chamar de Terroir, vinhos senhores do seu nariz, elegantes, com uma frescura muito própria daquela zona e com uma vontade muito própria... tudo isso se mostrou neste Grande Escolha 2007, um tinto de enorme categoria, frescura com a barrica em plena harmonia com a fruta de qualidade, ali mora algo de Douro, de rusticidade com travo vegetal mas que depois remete para algo mais arredondado e moderno. Um vinho que mostra uma nova faceta nos vinhos Dona Berta, pessoalmente gostei muito, quem o provou não lhe ficou indiferente e de todas as garrafas penso ter sido a única a ter sido bebida e não provada... é uma Grande Escolha e como tal merece ser procurado e comprado. 93 pts

18 setembro 2011

Lavradores Feitoria Grande Escolha 2007


O jantar estava marcado, desta vez deixei as facas a descansar e rumei a casa de mais um grande amigo... tinha escolhido uma garrafa de vinho para levar, fica sempre bem e esta já estava no cepo vai para longos meses, escolhi um Lavradores de Feitoria Grande Escolha da colheita de 2007, vinho exaltado e anunciado noutros lugares como Melhor do Ano. Dar importância a mais a estas coisas do Melhor lá do que seja é sempre causador de melindres na hora de provar o vinho, quase sempre as expectativas são colocadas mais altas daquelas a que o vinho realmente corresponde... não falha. O jantar seria Arroz de Pato no forno... prato delicioso que eu adoro, tanto fazer como comer, não dispenso os patos da Quinta da Marinha, para mim o melhor pato que se compra por aí... a gordura que larga durante a sua cozedura é a suficiente para depois passarmos à cozedura do respectivo arroz, sem falar nos aromas que podemos potenciar com o cravinho, algumas bolas de pimenta preta, meia cebola... coisas boas que fazem com que ligação com o vinho seja muito boa por sinal. Não esquecer que temos um Douro, boa frescura, esperada suficiente para combater a gordura do P(r)ato, estrutura para a carne com os aromas e sabores a combinar com os temperos, a nota artística vai-se buscar à cobertura de gema de ovo tostada com rodela de chouriço assado e a salsa fresca finamente picada, um cheirinho, a espalhar por entre a carne e o arroz, o tal lado vegetal impresso nos vinhos do Douro.

O vinho lá foi aberto e decantado uma boa meia hora, fez-lhe bem, mostrou boa complexidade, desenvolveu durante o tempo em que esteve à espera, fino e elegante desde a barrica que se notava a suportar o conjunto, à fruta madura e especiarias... apesar disto esperava um pouco mais de presença aromática, mais e maior envolvimento na boca apesar de uma entrada com frescura e presença de frutos negros, o vinho mostra ligeireza (não foi a primeira vez tendo o que já disseram por estes lados) e alguma quebra no final... cai sem avisar... perde-se no palato, perdendo encanto e caso fosse , pontos. Estrutura mediana, final de boca mediano para o curto... e eu que esperava bem mais de um vinho como este. Atenção que o vinho não é mau, é muito bom, mas fora de qualquer loucura enófila à sua volta, o preço ronda os 30€ para mim caro para o que mostrou... Provando este vinho em novo dá para entender o que se encontra depois nele passado uns anos... confirma-se com o Grande Escolha 2001. Ainda se foram abrindo outros vinhos a modos de complementar o jantar, saudável e grata recordação de um Quinta do Além Tanha Vinhas Velhas 2002... surpresa das surpresas o vinho mostrou-se em muito boa forma, talvez um bocado doce na maneira como a fruta se mostrou... de resto uma belíssima prova de nariz e de boca muito bem, começa ou vai já numa fase descendente, fazemos adeus e começar a pensar no Vinhas Velhas 2004. Num breve tira teimas ainda se abriu um Conde de Vimioso Reserva 2005 que espreitava por lá a um canto, a manter o nível dos restantes, com a fruta mais desembaraçada e fresca que no anterior caso, evolução nobre e com pernas para andar, apostar neste vinho parece valer a pena se levarmos em conta o exemplo deste 2005... são 6 anos de vida com vontade de uns tantos mais.Voltei ao Grande Escolha, sem melhoras, estável durante uma noite inteira... a quebra na prova de boca mantinha-se na mesma, não é defeito é feitio e se não fosse assim a conversa seria outra. 91pts

15 setembro 2011

Uvas Chumbadas ou talvez não ?

Tenho sérias dúvidas que depois de visualizar a reportagem que deu na TVI (O veneno nosso de cada dia), alguém tenha ficado indiferente e não se tenha metido a pensar no que realmente lhe andam a meter no prato. Isso mesmo, a meter no prato, com uma oferta cada mais afunilada nos dias de hoje as opções que nos restam de comprar determinados produtos empurram o consumidor para uma obrigatoriedade em consumir apenas deste ou daquele hiper ou super, o ritmo urbano a isso implica... infelizmente.
A procura pela subsistência, sobrevivência de cada um, as menores posses e o impedimento de chegar a esses locais leva ao surgimento das hortas sociais, das hortas urbanas... daquelas hortas colocadas num cocktail venenoso qual 2ºCircular em Lisboa. Ao ver estas situações que já conhecia devido a trabalhos que realizei na área no passado, lembrei-me que não muito afastado no tempo certo Município (Pombal) tinha plantado uma vinha em plena rotunda... isto foi na altura noticia de algo inovador , giro e porreiro e que até despertava curiosidade para que vinho iria sair dali... pelo que parece tem saído vinho em produção reduzida e até tem nome... Bagos do Marquês.
Dá para perguntar se as uvas ali colocadas são imunes à poluição que a rodeia, pergunto também se quem teve a feliz ideia de realizar vinho de uvas dessas tem noção disso mesmo... afinal de contas penso que ninguém queira andar a ingerir venenos seja em alfaces, couves... ou vinho. Haverá análises feitas a estas e outras vinhas em igual circunstância ? Com isto começo a recordar-me de todas as vinhas que ficam à beira da estrada, estradas essas movimentadas durante um ano inteiro, basta ver as vinhas situadas em toda a estrada nacional ou mesmo pela auto-estrada que vai desde Elvas até Lisboa... começando em Palmela pelas vinhas coladas à auto-estrada, por todas aquelas vinhas situadas entre Estremoz e Borba ali à beira da estrada nacional, recordo que é uma das principais ligações de Portugal a Espanha... será que tudo isso não afecta as uvas ? Há estudos/análises feitos tanto aos solos como às uvas que mostrem que afinal está tudo bem e nada a temer ? Alguém já se lembrou de questionar isso ? A taxa de tumores cresceu em Portugal desde 1981 cerca de 735% ... não se deve apenas a isto ou aquilo, deve-se a um todo e quando toca à saúde do consumidor todos deveríamos questionar se o que ingerimos/bebemos está dentro dos parâmetros normais da lei. Se uma maçã ou alface ou até carne estiver contaminada com valores acima da legal... o produto é pura e simplesmente proibido de ser colocado à venda... será que no vinho ninguém se preocupa ?

08 setembro 2011

Flor de Nelas Reserva 2008


Nesta procura do novo santo graal que é descobrir afinal de contas quem é o consumidor de vinho tantas vezes invocado por revistas, guias e produtores, dou comigo a pensar que o tal consumidor na dureza da palavra, será acima de tudo o povo... sim que o pedante enófilo não se mistura com a ralé nem compra vinho em hipermercado, compra a mulher que ele passa a vida nas provas nas garrafeiras da especialidade apesar de nunca comprar nada. Portanto é para o povo ao léu, para o consumidor normal, para todos aqueles que procuram beber bom e barato que este texto se destina... na verdade o vinho é vendido no LIDL, vinho que pela apresentação cativou-me mas aqui mais do que nunca o poster da promoção Compra 1 leva 2 foi o ultimato final para pegar em duas garrafas e dirigir-me à caixa. Pensava eu que um vinho que custava 3.99 e que assim ficou a custar 1.99 cada garrafa... como é possível ? Sim porque o vinho é um lote de Tinta Roriz, Alfrocheiro e Touriga Nacional e está bem apresentado, bonito rótulo, garrafa robusta, com um bocado de atenção ficamos a saber que teve direito a estágio em barricas de carvalho francês durante 6 meses e ainda mais 3 em garrafa... a rolha não é má... e custa 1.99€


Não resisti e abri uma garrafa mal cheguei a casa, mal o verti no copo fiquei a olhar, tinha bom aspecto o magano, na primeira cheiradela de imediato olhei para o rótulo e para o contra rótulo, tomei-lhe o peso... boa surpresa para o preço que paguei, esperava menos que isto, é um vinhito muito mas muito agradável, a passagem por madeira deu-lhe um toque extra de complexidade que se nota, ganha com tempo no copo, direi que é de mediano corpo, fresco, vinho do Dão ali de Nelas, mostra uma frutinha adocicada pelo meio... e sim é bem melhor que o Cabriz. Pelo preço revela-se uma obrigatoriedade para o consumo do dia a dia, penso que até seja bom demais para esse tipo de consumo... bom também para se deixar a marinar na garrafeira de casa por um anito que a coisa sempre melhora. Continuava a cheirar e a beber, dá gozo meter o nariz no copo, na boca passagem com alguns taninos no final, começou a pedir comida, os aromas a querer cativar sem grande alarido... gostei eu e gostaram todos lá em casa... cumpriu mais do que seria de esperar e é para isso mesmo que os vinhos são feitos.

05 setembro 2011

Cedro Mini Vinho Branco

Não faz muito tempo que foi lançada no mercado esta nova marca de vinho branco, o Cedro Mini, na realidade é uma ideia inovadora com toque de arrojo no conceito e também de alguma provocação, um puro branco de esplanada ligeiramente gaseificado (que vai saindo com o tempo de copo) e a preço mais do que convidativo. O objectivo parece ser o fazer com que se deixe de pedir uma imperial e venham para a mesa umas garrafitas deste branco, que simula o tamanho da Mini... da minha parte nada contra, uma vez que este branco sem ano de colheita, feito com Maria Gomes e Bical na Real Cave do Cedro (Anadia) com 11% Vol. não envergonha e até se mostra bem melhor do que alguns brancos com ano de colheita.
O que aqui temos é um vinho a beber fresco, muito fresco, em conversa ou sem ela, tornando-se um bom companheiro de esplanada, bebe-se descontraidamente, assenta na simplicidade e frescura de conjunto, tem lá o toque da fruta e do floral, todo ele agradável mas nada de mais... é o que é e a mais não é obrigado. E as pratadas de conquilhas agradeceram de que maneira esta nova companhia.

13 agosto 2011

Alonso del Yerro 2008

É dos vinhos que mais prazer me dá beber nos últimos tempos, abri a segunda garrafa e novamente um vinhaço no copo de encontro ao que já me acostumou nesta e nas colheitas anteriores, aqui mais concentrado e cheiroso que o 2007, pura classe com tempo pela frente para melhorar, mas desde o momento em que se serve até que a garrafa se acaba é um puro gozo estar de roda deste vinho produzido na Ribera del Duero.

Estes são os vinhos que procuro, compro, guardo e partilho com os amigos mais chegados, este é o vinho que me garante elegância, harmonia entre partes e boa longevidade, nada aqui é de excesso, nada aqui é de quebras nem falhas, é grande desde que se cheira até que se engole... é vinho que não sendo barato 22€ dá uma prova melhor que vinhos que custam o dobro... ou seja, comprar beber ou guardar o prazer esse é mais que garantido. Como diz a letra do famoso José Afonso:

"Venham mais cinco. Duma assentada. Que eu pago já. Do branco ou tinto. Se o velho estica. Eu fico por cá. Se tem má pinta. Dá-lhe um apito. E põe-no a andar"

Enche o nariz com frescura da fruta, fruta da boa e bem limpa com tons de cereja, morango e amora, depois vem banhada por especiarias, café moído e algum regaliz com floral em fundo. Mostra-se desde o primeiro instante um vinho que esconde uma belíssima complexidade, madeira no ponto, dá cacau e fina tosta, conjunto de enorme qualidade, em postura de quem tem a lição muito bem estudada, não se inventa nem se tapa defeitos com excesso de "pau".
Boca cheia e gulosa, fruta fresca forra o palato, tudo em conjunto como no nariz... o morango, a especiaria, algum toque de bálsamo, tosta... e tudo muito apelativo num longo final. 93

09 agosto 2011

Crónica dos bons malandros... o jantar estava marcado

Estou farto de debitar apenas e só notas de prova, acho isso chato, banal, coisa que qualquer bot programado faz às carradas e nem precisa de saber provar, dou por mim a despender o tempo que antes tinha para a prova a ser passado de volta do meu filhote... sente-se mudança no horizonte, sente-se que a coisa tem de mudar, esticar a vela para outro rumo, dar a volta por outro lado para sair do lodaçal banal que isto se anda a tornar... os cadernos de prova ficaram à porta, o relógio batia nas 20h e o cenário estava composto, é à volta daquele objecto de culto que é a mesa que tudo voltava a acontecer, mesa cheia mesa farta... à espera estavam os pratos a serem servidos e alguns vinhos que fui salvar do baú das memórias, vinhos esquecidos e ignorados força da moderna enologia, da infusão de madeiras e da fruta madurona temperada com colher de açúcar...
Penso que seja um dever de quem prova vinhos conhecer um mínimo do que é a nossa história como país produtor, ter provado um pouco do que melhor se fazia em determinados locais, vinhos que fizeram história e histórias que falavam sobre vinhos... tudo para entender o que antes se fazia e se deixou de fazer, motivos, causas e vontades, tudo isto com o olhar atento dos amigos de longa data e longa vida, assim os quero ter pois ainda há muito que provar, descobrir e conhecer.
Comecei por servir uma Salada de rúcula com vinagreta de frutos vermelhos, foie, nozes e Boffard ... a acompanhar um Quinta do Alqueve Colheita Tardia 2005. Resultou boa a harmonia entre prato e vinho, com o queijo a puxar pelos seus galões com imediato aconchego dado pela cremosidade do foie e limitado pela secura da rúcula. O vinho apesar de dar uma prova satisfatória mostrou-se tanto pela cor como pela prova que deu precocemente evoluído, cansado nos aromas e com falta de acidez na boca e frescura no nariz, nada ali cheira a novo, fruta desfeita e cansada, sem motivos para dormir mais tempo em garrafa.

Deu-se depois o salto para uns Mexilhões à Marinheira (Moules à la Marinière) em que o branco escolhido foi um branco seco, novamente uma tentativa de testar um vinho já com idade, retrocedi até 2003  troquei a volta aos convivas, e fui buscar o Dona Berta Rabigato 2003. Servido em prova cega o vinho deu que falar e permitiu enormes divagações no pensamento dos provadores, um branco de 2003 em grande forma é obra, são poucos os que o conseguem e ainda menos os que conseguem mostrar a mesma acidez, austeridade mineral a raspar na língua toques de vegetal seco e alguma lima... algum sinal de idade, vinho grande, vinho que não parecia ter a idade que tem, a fruta ainda na fase SIM todo ele melhor no nariz que na boca, a pedir comida por perto. Por graça ainda se abriram mais dois brancos, o primeiro um Maritávora Reserva 2009, pesado como a madeira que exalava a mais e fruta a menos, na boca perde-se a meio, falta substância e afirmação a este vinho, custa caro pois ronda os 25€ e tem pouco para oferecer por aquilo que dizem valer. Ao lado abria-se um Terrenus 2008, um branco de Rui Reguinga... um branco da Serra de São Mamede (Portalegre) que subjugou por completo o anterior, bem mais vinho, mais complexo e mais harmonia, todo ele em grande plano, é vinho com princípio meio e fim... essencial no meu ponto de vista. 

Feito um pequeno interregno no jantar, foram-se abrindo os tintos a bom ritmo e novamente em prova cega, e o primeiro vinho escolhido foi um Cooperativa da Granja 1988, pré CVRA portanto com uns fantásticos 12,5% Vol. , feito pelo enólogo António Saramago e pensava cá para mim, seria uma pequena marotice colocar este vinho em prova no qual não depositava grandes esperanças, tinha sido comprado por 0,50€ num lote de outros tantos vinhos velhos da região Alentejana, a rolha já empapada foi tirada a ferros, verti o vinho no copo, rodei cheirei e sorri... à magano que estás tão bom. Na mesa servia-se Carne do Alguidar com Migas à Alentejano... o vinho inicialmente algo confuso e torpe, tanto sono, que foi acordando e mostrando o que de bom tinha para mostrar... e ainda era muito, sentia-se frescura no nariz, nada de aromas secos e remeter para canto, fruta madura com destaque na ameixa bem redonda e sumarenta, envolvida em calda, os terciários faziam a festa de maneira harmoniosa, tabaco, couro e algum licor... boa a condizer, entrava docinho mas a saber a fruta madura, sem passa sem pressas... mais uma rodada e outro que saltava para a mesa. Alguém se lembrou de abrir um Casa Cadaval Trincadeira Vinhas Velhas 2006, vinho cativante pelo aroma adocicado da fruta com toques entre o vegetal e o apimentado, todo ele muito bem trabalhado mas algo cansativo durante a prova, entrou-se depois numa mini vertical de Má Partilha, o Petrus das Terras do Sado como já foi chamado na altura do seu primeiro lançamento no ano 1986, em prova o 1989 aquele que foi e é o primeiro Merlot a ser engarrafado em Portugal e continua a ser o melhor exemplar da casta... de velho não tem nada, a maneira com que se desdobrou no copo e mostrou tudo o que tem de bom remeteu para outros pensamentos, outras paisagens ainda que de maneira um pouco sonhadora. Mostrou-se em bela forma, com frescura e sem grandes notas de cansaço ou desmaio durante a prova, nada de aromas chatos e mortiços, vinho de gabarito. Abriu-se de seguida um 1999 que estava lixado de aromas, em queda precoce mas a guarda a que a garrafa tinha sido sujeita não terá permitido uma prova mais condigna, o 2001 mostrou-se melhor, a mostrar-se bem na onda do 1989 e com vontade de tentar a proeza de se mostrar em igual nível daqui por alguns anos.

A noite ia longa, a conversa com enorme animação os vinhos davam que falar, a reta final estava próxima, saltou uma Panacota com molho de Arando Vermelho, tentou-se ligação com um Lajido do Pico 1994, vinho difícil complicado e de nariz comprido, vulcanizado demais para o meu gosto... limparam-se os copos e partiu-se para um Graham´s Colheita 1961.

Até à próxima.

PS: Alguns dos vinhos serão alvo de uma nota de prova mais individualizada a ser colocada em tempo oportuno.
 
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