Copo de 3

30 Setembro 2014

Grão Vasco 2013

É bem recente a renovação da cara daquele que é um dos mais reconhecidos rótulos do vinho do Dão, o Grão Vasco. A origem da marca remonta ao final dos anos 50, com a compra da Vinícola do Super-Dão Ltd., e que homenageia o pseudónimo adoptado cinco séculos antes pelo famoso português Vasco Fernandes (1480-1543). O retrato de "S. Pedro", considerado a sua obra-prima, faz até hoje parte da imagem de marca, ainda que neste novo reformular da marca tenha sido deixado para segundo plano apenas de soslaio na cápsula da garrafa. Quanto aos vinhos são de fácil abordagem, vinhos feitos a pensar no consumo diário, muito directos e francos, feitos com o objectivo de agradar ao mais alargado número de consumidores e nestes casos apenas a dizer que cumpre com os requisitos. O Grão Vasco branco 2013 elaborado a partir das castas Encruzado, Malvasia, Bical e Sercial é fresco e apelativo, muito centrado na fruta em modo salada, boca em sintonia 86ptsO Grão Vasco tinto 2010 é muito harmonioso, frescura ligeira com a fruta também aqui a comandar, corpo mediano idêntico ao final de boca.. 86pts

20 Setembro 2014

Pala da Lebre branco 2013


E assim do nada eis que alguns produtores decidiram, e ainda bem que o fizeram, apostar em rótulos mais arrojados, alguns deles cheios de bonecada. Uns mais atrevidos que outros esta nova vaga parece que veio para ficar, de certo modo dá a sensação que se perdeu a "vergonha" e se decidiu arriscar, será pois esta uma normal e necessária adaptação aos tempos modernos, a busca do respectivo nicho de consumidores que será certamente o caminho mais certeiro a percorrer. Neste reboliço chega do Douro o Pala da Lebre branco de 2013, um vinho com imagem renovada, rótulo divertido e diferente do direi tradicional ou até mais formal. O vinho, cujo preço fica abaixo dos 6€, corresponde de uma forma graciosa, a mostrar frescura, certinho e direitinho, com aromas convidativos e perfumados num conjunto bastante agradável. Sem desmesurada complexidade é um vinho à imagem do seu rótulo, divertido. 89 pts

16 Setembro 2014

Marquês de Borba branco 2013

Depois de uma breve pausa retoma-se o leme e enfrentam-se as ondas de um tempo mais atribulado que nunca, matreiro para quem por esta altura desespera por poder sair para o campo e vindimar o fruto de 2014. Enquanto isto abro um Marquês de Borba branco 2013, vinho correcto e simpático, menos nervoso e muito mais afinado se o comparar com as primeiras colheitas. Na altura não havia o Loios nem o Vila Santa formato branco, havia um saudoso Antão Vaz e o branco mais sonante e que metia respeito era o tal Marquês de Borba. 

Esse estatuto continua no dia de hoje, a solidez da marca resiste às ligeiras e naturais flutuações das colheitas, o preço sem grande oscilação a rondar os 5€ com uns 12,5%Vol. torna o Marquês de Borba um daqueles que não falha e cumpre todos os requisitos que leva os consumidores a apostarem nele. Do lote de Arinto, Antão Vaz e Viognier, assenta num aroma frutado (tropical e citrino) com leve floral envolto em boa frescura que o acompanha por todo o palato, marcado pela boa e sumarenta presença da fruta, delicado e muito equilibrado com boa secura no final de boca. 89 pts

21 Agosto 2014

D.Graça by ViniLourenço



A ViniLourenço (Douro) é uma pequena empresa familiar, onde se destaca a figura de Jorge Lourenço. Na totalidade conta com 40 ha de vinhas, de idades entre 1 e 80 anos, repartidas por muitas parcelas, a maior parte das cotas está entre os 500 e os 650 m de altitude, na zona da Mêda, mas há parcelas a 200 m, junto ao Pocinho. As castas principais são a Viosinho, Rabigato, Verdelho e Malvasia Fina (brancas), e a Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca, Sousão e Tinta Barroca (tintas). A viticultura é sustentável e, para além das castas tradicionais do Douro, há também várias parcelas de castas antigas, para recuperar e preservar sabores do passado. Um produtor que apenas conhecia de ver no papel e ocasionalmente em alguma prateleira, constata-se mais uma vez que não há nada melhor do que visitar as instalações e falar com os seus responsáveis para se ficar a conhecer e entender o que ali é feito e aproveitar para entrar em contacto com alguns dos seus vinhos. Diga-se de passagem que foram uma bela surpresa principalmente o Rabigato 2012 e o Tinto Cão Reserva 2009, vinhos que se mostram distintos sem aquele "mais do mesmo" tão fácil de encontrar nos dias de hoje, salutar a maneira fresca e airosa com grande domínio à mesa.

D.Graça Rabitago 2012
Mostra-se fresco e com ligeira austeridade, envolto em frescura com fruta sóbria e directa, marca vegetal com acompanhamento de ligeiro mineral, tudo comedido e sem exageros. Boca a confirmar o já descrito, melhor na boca do que no nariz, entra fresco e saboroso, boa presença quer no palato quer no final. Para o preço a rondar os 6€ mostra-se bastante tentador. 90 pts

D.Graça Tinto Cão Reserva 2009
Chama a atenção no imediato, conjunto muito bem conseguido com uma atractiva e graciosa rusticidade, marcadamente vegetal (rama de tomate) no início, fruta gorda com especiaria, suave tosta da madeira, tudo muito bem embrulhado e apetecível. Boca com prova cheia de fruta sumarenta, muito elegante de mediano porte mas vincado no palato, agradável e distinto. Preço a rondar os 15€. 91 pts

15 Agosto 2014

Mapa - os vinhos de Pedro Garcias


Inserido na visita ao Festival do Vinho do Douro Superior, tive a oportunidade de conhecer mais de perto o projecto Mapa, cujo proprietário é o jornalista Pedro Garcias. O seu projecto nasceu vai para uma década, em 1999, com a compra das primeiras terras perto da aldeia de Muxagata (Vila Nova de Foz Côa), sendo que nos dias de hoje a exploração agrícola conta com duas quintas e cerca de 30 hectares. São vinhos ligados à terra como Pedro Garcias ia explicando à medida que se ia caminhando pelo vinhedo, dominado pelo xisto e com uma fantástica paisagem a servir de cenário. As primeiras colheitas vieram a público em 2009 com o tinto e 2010 com o branco onde predomina a casta Rabigato.

No total foram provados três vinhos, os brancos 2012 e 2013 e o tinto 2012, mostrando todos eles muita frescura com uma rusticidade muito própria que lhes assenta lindamente, nunca impedindo por sua vez uma muito boa prova nas duas versões. O branco cujo preço ronda os 8€, assenta num blend com destaque para a casta "local" Rabigato, sem passagem por madeira apenas com direito a battonnage. Já o tinto com preço a saltar para próximo dos 17€  mostra-se como Reserva, tem passagem durante 12 meses por carvalho francês. Todos eles a mostrarem ser uma aposta séria na qualidade e identidade, com boa margem de evolução em cave.


Mapa branco 2012
Com menos exuberância que o 2013, menos complexo e mais espaçado no que mostra, evidentes notas vegetais, perfume floral de flores de limoeiro, fruto tropical com invocações minerais em fundo. Boca com boa frescura, preenche o palato com presença de corpo mediano cheio de sabor com uma ligeira quebra no final. 90 pts

Mapa branco 2013
Melhor definição de aromas em relação ao 2012, mais sério e afinado com toques minerais acompanhados de aromas citrinos, tropicais envoltos num toque de calda, com folhas de limoeiro cheio de frescura. Boca a condizer, num vinho cheio de frescura, com nervo, ligeira austeridade no palato, a battonnage a que teve direito arredondou-lhe ligeiramente os cantos, fresco, harmonioso e em grande forma. 91 pts


Mapa Reserva 2012
Feliz surpresa este novo Reserva, cheio de fruta silvestre madura e fresca, raça com complexidade e aquele toque mais agreste a combinarem muito bem com uma harmonia e frescura que o envolve por completo. Boa profundidade de aromas, a barrica fez o seu trabalho sem deixar rasto, dando lugar para que a fruta brilhe como deve ser. Na boca replica o prazer da prova de nariz, fresco, arredondado mas com muita e generosa fruta a combinar com pimenta preta, toque mineral mais rude. Uma bela surpresa que acompanhou uma perna de cabrito no forno. 92 pts

13 Agosto 2014

Coroa d´Ouro branco 2013

É vinho certo para este tempo incerto, bem feito e à medida de todos aqueles que lhe gostam de esticar a mão sem levar uma dentada do preço. O preço não estará longe da casa dos 3€ e como tal ajustado a uma qualidade muito presente, conjunto apetecível cheio de frutas tropicais e citrinos, fresco e de semblante Duriense. Não se espere pois então uma daquelas bocas avassaladoras pejadas de riqueza e forrada a cristais, beba-se tendo em conta o prazer que dá e não mais que isso. Rolou com uma generosa dose de conquilhas. 87 pts

10 Agosto 2014

Vale da Mata Reserva 2010

Produzido a partir de uma vinha com o mesmo nome (Vale da Mata) na encosta da Serra de Aire (Leiria), este novo Reserva da colheita 2010 resulta do blend das castas Touriga Nacional, Aragonez e Syrah. Mostrou-se em comparação com o Reserva 2009 menos opulento e carregado, com mais espaço entre aromas e sabores, também menos madeira presente num vinho cheio de encanto com a qualidade a voltar a ser destaque numa referência que se começa a afirmar na zona de origem. Conjunto de boa frescura com muita harmonia, do princípio ao fim, provado e posteriormente servido em mesa bem composta por caras sorridentes que depressa se debruçaram sobre o precioso néctar. Aposta segura até para os quase 18€ que custa, copos largos e comida de bom tempero por perto que ele dá conta do recado. 92 pts

06 Agosto 2014

Monte da Ravasqueira Rosé 2013

Revisitando o Rosé Monte da Ravasqueira (Arraiolos) agora na colheita 2013, mantém a boa prestação que já tinha dado na anterior colheita, mostrando que a qualidade neste tipo de vinhos deu um enorme salto nos últimos anos. De aroma fresco e muito focado na fruta vermelha, madura e gulosa, com uma bela harmonia bem acompanhada por um ligeiro travo vegetal (rama de tomate, hortelã pimenta), num conjunto cativante e com algum vigor. No palato começa com sensação de ligeiro arredondamento, aquele travo ligeiramente doce que cativa logo no princípio, terminando seco e prolongado. Gostei bastante e é claramente um passo em frente no que à qualidade diz respeito, acompanhou muito bem uma Salada de Frango com Romã. 90 pts 

04 Agosto 2014

Adega Borba Premium branco 2013

Completa-se com este branco a gama Adega de Borba Premium, num vinho feito à base de Arinto, Antão Vaz, Verdelho e Alvarinho. Não me deixou tão entusiasmado tendo em conta a restante gama, o rosé e acima de tudo o tinto, esperava aqui encontrar um vinho que tivesse alguma passagem por madeira, algo mais rechonchudo mas com muito boa frescura que o controlasse e desse a mesma vida que mostra ter. O vinho pelo contrário conheceu apenas o frio do inox, ficou estático e desenvolve pouca conversa apesar de toda a sua estrutura estar assente quer na fruta madura e precisa, quer na boa frescura que tem.. Custa 5,49€ na loja online da Adega de Borba. 88 pts

01 Agosto 2014

Montes Claros Reserva branco 2013

Custa na loja da Adega de Borba 4,89€ este novo Montes Claros Reserva branco cujo lote resulta das castas Roupeiro, Antão Vaz, Arinto e Verdelho. Mantém o mesmo perfil sóbrio que vem sendo costume na marca, sem transmitir o entusiasmo que conseguiu o Reserva Rótulo de Cortiça ou sequer a genica que o mais recente Adega de Borba Premium branco mostrou ter. O que temos aqui é um vinho branco sereno, sem grandes exaltações mas que mostra um patamar de qualidade ajustado ao preço, algo que nesta Adega sabem fazer muito bem. O aroma fresco carregado de fruta tropical com citrinos misturados, ligeira baunilha que a passagem por madeira lhe ofereceu, depois é o toque verde das folhas e flores do limoeiro e da laranjeira. Na boca cheio de vida, ligeira untuosidade, fruta a marca o palato até final prolongado em corpo mediano. Bom companheiro de um Cação de Cebolada. 89 pts

24 Julho 2014

Os vinhos Atlânticos da Ilha do Pico (Açores)

De todas as regiões demarcadas em Portugal os vinhos oriundos dos Açores são com toda a certeza os mais esquecidos, os menos discutidos, os menos divulgados e os que menos vezes chegam à mesa dos consumidores. No entanto a situação está a mudar e assiste-se a um esforço das entidades locais, entre produtores/CVR para que estes vinhos sejam encarados/consumidos de forma mais habitual.

Focando apenas na Ilha do Pico, são vinhos que nascem sensivelmente a meio do Atlântico, em solos de lava que marcam a paisagem da ilha e que a população local diferencia entre "lajidos" e "terras de biscoito" (Ilha Terceira). É uma região peculiar, moldada pelo ser humano nos famosos "currais", Património Mundial da Humanidade pela Unesco, que isolada de tudo se tornou depósito natural de castas únicas e diferenciadoras (cheiros e sabores) levadas pelos colonos. Destacam-se três castas, o Arinto dos Açores que é diferente do Arinto de Bucelas, o Verdelho que foi a primeira casta implantada na ilha e idêntico ao da Madeira mas diferente do encontrado em Portugal Continental e o Terrantez do Pico, distinto do Terrantez da Madeira e do que se encontra no Dão.

Durante anos o mais famoso vinho da Ilha do Pico foi o licoroso, cuja principal característica é a não adição de aguardente, hoje em dia a oferta é mais vasta e estende-se por brancos frescos, de travo salino/mineral em conjunto com licorosos que oscilam entre o perfil mais seco ou mais doce, capazes de surpreender pela diferença.
Uma prova de contrastes, surpresas e comparativos onde a forte ligação à mesa com peixe e marisco se tornou mais que evidente. Contou com as presenças dos produtores Maria Álvares (Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico), Marco e Rui Faria (Curral de Atlântis), Paulo Machado (Insula Vinhos) e Fortunato Garcia (Vinho Czar), foi conduzida pelo enólogo António Maçanita (Fita Preta).

Curral Atlântis Arinto dos Açores Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Muita frescura, toranja, lima, folha de limoeiro, salino, menos expressivo que o Verdelho. Muita energia no palato, frescura, sumo de citrinos maduros, mineralidade em conjunto com bom final de boca. 89pts

Curral Atlântis Verdelho Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Marcado pelo toque mais tropical da fruta, cheio e maduro, fresco e salino, envolvente com nota de pederneira. Boca com frescura, vegetal fresco com fruta tropical, seco no final mediano. 88 pts

Curral Atlântis Verdelho/Arinto dos Açores Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Aroma de fruta tropical com citrinos maduros, boa frescura, muito limpo, notas de um Verdelho mais gordo e redondo que abraça o Arinto mais ácido e cortante. Conjunto com harmonia entre castas num vinho claramente feito para a mesa. 90 pts

Arinto dos Açores by António Maçanita 2013 (DO Pico)
 Frescura num conjunto marcado pelo detalhe da fruta limpa (citrinos) e delicada, toque salino, todo muito equilibrado e a dar uma prova muito agradável. Na boca é fresco, salino, muito citrino presente com final persistente. 91pts

Insula Private Selection 2013 (IG Açores)
 Feito com Arinto dos Açores, carácter vincado num vinho tenso e com muito vigor, notas de pederneira ao lado de fruta limpa e madura, toranja e limão. Boca com austeridade mineral, quase salino, fruta madura a envolver num final de boca seco e prolongado. 90pts

Frei Gigante Reserva 2012 (DO Pico)
 Um perfil diferente do normal, blend de Arinto dos Açores com Verdelho e Terrantez do Pico. Conjunto perfumado com fruta madura (pêra, toranja), fumo, salino, ao mesmo tempo sensação de untuosidade e envolvência. Boca com boa presença da fruta madura, saboroso, boa acidez a terminar seco e mineral. 90 pts


Lajido Licoroso Seco 2002 (DO Pico)
 Não é um vinho de abordagem fácil, recorda ligeiramente os vinhos de Jerez, pela oxidação em conjunto com toque salino e fruto seco, amanteigado com ligeiro iodo. Boca com secura, fresco com frutos secos e iodo, num final persistente e longo. 88 pts

Lajido Licoroso Reserva Doce 2004 (DO Pico)
 Num perfil mais untuoso que o Lajido Seco, notas de frutos secos cobertos de caramelo, laranja caramelizada, uva passa, biscoitos, tudo em boa complexidade. Boca a condizer com os aromas, envolvente e com uma bela acidez. Final longo e persistente. 91 pts

Czar Licoroso Superior Doce 2008 (DO Pico)
 O mais exótico e fora do habitual, resina, toque de frutas cristalizadas com especiarias, ervas de cheiro e tisana, boa frescura a embalar o conjunto com toque salino em fundo. Gordo, complexo, guloso e estranho, diferente e divertido. 90 pts

Curral Atlântis Verdelho/Arinto dos Açores Doce 2005 (DO Pico)
 Passou 5 anos em barrica e 1 ano em garrafa, muito equilibrado, torrefacto, laranja caramelizada, salino e untuoso. Boca a mostrar muita frescura que liga com fruta caramelizada, calda de fruta, final longo e persistente. 89pts

Publicado em 03 junho 2014 em Blend - All About Wine

20 Julho 2014

Terras de Tavares - O Dão do João


A Quinta da Boavista, pertença da família Tavares de Pina, onde se produzem os vinhos Terras de Tavares e Torre de Tavares, situa-se na Região Demarcada do Dão, Penalva do Castelo, entre as Terras de Penalva e as Terras de Tavares, a uma altitude aproximada de 450m.

A Quinta data dos finais do séc. XVIII tendo tido a vinha como actividade principal e hoje em dia conta ainda com a criação de cavalos raça Lusitana, mas também já ali se produziu o famoso Queijo da Serra da Estrela. Os cerca de 7ha de vinha situada em solos de transição xisto-granito de grande profundidade e elevados teores de argila conferem aos vinhos características muito especiais.
A uva que antes era vendida para a Cooperativa local, deu origem em 1997 ao primeiro Terras de Tavares, considerado até hoje como um dos melhores vinhos do produtor. Apenas em 2005 começaram a ser vinificados na Quinta. Até então apenas elaboravam blends de toda a produção que eram produzidos na Quinta da Murqueira.

Na Quinta da Boavista, João Tavares de Pina, um amigo de longa data e produtor apaixonado pela região com toda a irreverência que o caracteriza, vai criando a seu gosto vinhos plenos de identidade, de forte ligação à terra, espelhos de cada colheita que apenas são lançados para o mercado quando ele considera estarem aptos para consumo.

Não procura o agrado fácil. Os vinhos são feitos à sua imagem, com madeira pouco presente e estágios prolongados em garrafa. Brilhantes à mesa, apreciadores de uma boa conversa, claramente marcados pela alma da região num cunho muito próprio que João trata de aprimorar colheita após colheita.
Em conversa ficamos a saber que o João tem um carinho muito especial pela Jaén que considera de enorme potencial, juntando também a Tinta Pinheira e a Touriga Nacional. À Quinta da Lomba (Gouveia) foi buscar as uvas de onde produzia os seus brancos à base de Encruzado, Cercial e Síria. Entretanto as vinhas foram vendidas, pelo que teremos de esperar, quem sabe até 2015 para termos um novo Torre de Tavares branco.
Numa visita recente à Quinta da Boavista, aproveitei o seu fantástico enoturismo para me deliciar com a excelente gastronomia regional que João Tavares de Pina nos prepara a acompanhar os seus vinhos. Tive pena de não ter levado os calções de banho para dar um mergulho na fantástica piscina, mas fica para outra altura.

Torre de Tavares Síria 2009 (Regional Beiras)
Aroma a mostrar notas de muito boa evolução, intensidade média, flores, fruta (tangerina, maçã verde) com muita frescura e mineralidade de fundo. Boca com estrutura coesa, saboroso, com notas de fruta madura, num final fresco e bastante mineral.

Torre de Tavares Encruzado 2008 (DOC Dão)
Encruzado que não foi filtrado, mostra aroma evoluído com complexidade, cheio de detalhes, fruta madura, flores amarelas com toranja e marmelo, palha, sensação de untuosidade com boa mineralidade. Boca envolvente, fruta em calda, frescura com mineralidade em fundo.

Rufia 2012 (DOC Dão)
Nasceu na colheita 2009 como um 100% Rufete (Tinta Pinheira). Agora na nova edição juntou-se com a Touriga Nacional e a Jaén. O resultado é um vinho atrevido e cheiroso, pouco consensual devido à componente vegetal (rama de tomate) que está em evidência, embora a fruta esteja presente com muito boa qualidade e quase que se trinca. O vinho é mais sério do que se pode imaginar, um verdadeiro rebelde que alia compotas e balsâmico, sustentado por uma bela estrutura, com taninos presentes em final saboroso.

Torre de Tavares Jaén 2008 (DOC Dão)
Será posto à venda nos próximos meses. Apesar dos seis anos que já tem, está ainda muito novo mas cheio de encantos e recantos tão característicos do Dão. Está limpo e fresco, cheio de energia, muito fruto silvestre, balsâmico, pinheiro, cacau, madeira integrada com boa frescura. Explosão de sabor no palato, frescura com taninos a pedir comida por perto. O final deste belíssimo Jaén é longo e persistente.

Torre de Tavares Jaén 2007 (DOC Dão)
Vinho que desperta um sorriso, muito limpo e rico de aromas, coeso e envolvente a mostrar o grande vinho que é. Aromas característicos do Dão bem vincados, mato, pinheiro, frutos silvestres, muita frescura sempre presente, cacau e mineral em fundo. Boca a condizer, grande estrutura de apoio, muito boa frescura com a fruta sumarenta a marcar presença, taninos firmes com final especiado e longo.

Torre de Tavares Touriga Nacional 2008 (DOC Dão)
Uma Touriga Nacional mais contida e delicada, com aroma limpo, sedutor e fresco. Notas de alfazema, mato, vegetal e fruta madura bem integrada. Boca bem estruturada a mostrar fruta (cereja) bem casada com a madeira, balsâmico e mineral em fundo com taninos ainda por polir. Final longo e persistente.

Terras de Tavares 2006 (DOC Dão)
Resulta do blend Touriga Nacional e Jaén, com estágio de 3 anos em barrica e posterior estágio em garrafa. O vinho mostra-se ainda muito novo, cheio de vigor e a pedir tempo. Floral, com fruto negro e mineralidade em fundo. Na boca mostra muita força, taninos presentes, fruta gorda e frescura. É vincadamente terroso e possuí um grande final.

Terras de Tavares Reserva 1997 (DOC Dão)
Blend de Jaén e Touriga Nacional com domínio da primeira sobre a segunda. Complexo e delicado, limpo e perfumado, exibe notas de resina, floral, cacau, fruta vermelha gulosa (mirtilo e cereja), complementados com toques terrosos e especiados. Na boca é suave mas firme, longo, e com taninos domados. Muito elegante e com travos de um Dão clássico, precisa de tempo no copo. Final longo e persistente, num vinho que enaltece a sua região.

Publicado em 30 maio 2014 in www.blend-allaboutwine.com

18 Julho 2014

Quinta de Cidrô Gewürztraminer 2012

Para quem não conhece a casta Gewürztraminer e nunca provou nada vindo lá de fora (aqui até um básico serve) onde é rainha e senhora, compreendo que poderá ficar entusiasmado com este vinho. Pessoalmente não lhe consegui encontrar grandes motivos de extrema alegria ou mesmo vontade de o continuar a beber ou sequer pensar em ter por casa. A conversa é simples e resumida, invoca ligeiramente aquilo que a casta é mas de forma enfadonha, pesada e sem a frescura ou aquele ar de perfume de menina que os "genuínos" têm e mostram. É envolto em fruta gorda besuntada por geleia e uma acidez que o salva do desmoronamento total o que apenas acontece quando a temperatura sai da zona de conforto. O preço que salvo erro ronda 10€ parece-me caro e será sempre mais bem empregue num muito bom Alvarinho, Encruzado, Arinto, Rabigato, Bical, Loureiro... 88 pts

Alonso del Yerro 2010

Vem da vizinha Ribera del Duero (Espanha) este vinho que não é a primeira vez que por aqui aparece, 2007 e 2008 já foram alvo de visita. Produzido pela Bodega Alonso del Yerro mostra novamente argumentos suficientes para se entender porque é considerado um dos novos meninos bonitos da região. Uma vez no copo o que se destaca mais é a qualidade e frescura da fruta, toda a elegância com que se bandeia no copo, fresco, leve apontamento apimentado com regaliz/alcaçuz num conjunto complexo a mostrar grande trabalho da barrica muito bem integrada. Por detrás fica uma estrutura sólida o suficiente para lhe garantir boa evolução em garrafa, marcado novamente pela presença da fruta aveludada e fresca que escorre pelo palato, tosta e pimentas, final longo e persistente com taninos ainda presentes lá no fundo. Pelo seu porte e comportamento à mesa a escolha foi uma perna de cabrito com batatinha assada no forno. 93 pts
 
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